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A Luiza Brunet e o ministério de Michel Temer

“Ninguém apanha de graça” ou “Ela também agrediu o noivo” ou “Tem mulher que pede”.

Os comentários acima foram alguns dos que eu li em uma página que noticiava a violência sofrida pela ex modelo brasileira.

Pois é, a Luiza Brunet apanhou. E apanhou muito. Fora as costelas quebradas, uma foto de seu olho inchado e roxo está registrado nos autos do processo e circulou por várias redes sociais e sites de notícias.

Alguns de vocês devem estar se perguntando o que o caso de violência contra a Luiza Brunet tem a ver com o ministério de Michel Temer. Pois bem, explico:

No século XIX existiu um barbudo(1) que escreveu muito bem sobre o funcionamento da nossa sociedade. Para lograr êxito na clareza de expor os problemas da sociedade contemporânea, ele se dispôs a estudar como homens e mulheres se organizaram socialmente a fim de garantir a existência e reprodução da espécie humana. Para isso, entre os anos de 1845 e 1846 ele escreveu o que, em minha opinião, seria uma de suas obras prima.

O livro “A Ideologia Alemã” é uma leitura obrigatória para tentarmos compreender o funcionamento da sociedade moderna. Neste livro, o autor nos demonstra quais as bases de socialização de homens e mulheres, disse ele: “temos que contatar o primeiro pressuposto de toda existência humana, a saber, o pressuposto de que os homens precisam estar vivos para poderem “fazer história”. Mas da vida fazem parte sobretudo comer, beber, vestuário, habitação e a reprodução dos indivíduos”.

O que o barbudo está nos dizendo é que o pressuposto básico da existência humana é que os homens estejam vivos. Alguém discorda? E que, para isso é necessário que eles comam, bebam, vistam-se contra o frio, tenham abrigos contra predadores externos e possam se reproduzir.

A partir disto, surge a divisão do trabalho para organização deste pressuposto com fim de garantir a perpetuação da espécie humana. Por ordens fisiológicas, nas primeiras formas de organizações tribais da humanidade, o homem se incumbiu de utilizar sua maior massa muscular para caçar e espantar predadores externos e a mulher se incumbiu de providenciar vestuário e cuidar da prole. Reparem que no momento mais primitivo de socialização dos homens e mulheres, não havia distinção hierárquica entre os gêneros. Cada um tinha uma atividade tão importante quanto ao do outro(a).

Acontece que o poder coercitivo - uso da força - é uma arma. Brutamontes de todos os tipos abdicam do uso do cérebro para o uso da força bruta a fim de se impor perante as mulheres. E através do uso da força a mulher foi subjulgada a uma condição de hierarquia inferior ao homem. Além disto, as religiões tiveram papel fundamental na consolidação deste papel inferiorizado das mulheres. Em pleno ano de 2016, você pode ir a um casamento em alguma igreja evangélica neopentecostal aqui no Brasil e há boas chances de você ouvir que a mulher nasceu da costela do homem e, por isso, deve manter-se a sua disposição para servi-lo quando for necessário.

O caso da Luisa Brunet nos mostra que, ainda hoje, nós, em alguns casos, parecemos retroceder a condições mais irracionais do que as tribais. Isto explica o porque de as mulheres terem salários 30% menores exercendo os mesmos cargos dos homens. Isto explica o porque existe tanto estupro e tanto medo das mulheres em denunciar seus violentadores. Isto explica o porque o trabalho de casa ainda ser “coisa de mulher”. Isto explica o Deputado Marco Feliciano dizer, ao vivo em emissora de rádio, para o Gregório Duvivier: “seja homem e tenha coragem de admitir ...” (como se o ato de tomar coragem fosse algo exclusivo do sexo masculino).

Disto isto, eu passo ao ministério de Michel Temer.

Alguém que se propõe a ser presidente de um país tão complexo como o Brasil precisa ter uma visão global dos nossos problemas. Infelizmente os problemas são muitos e não dá para menosprezá-los.

Eu li e ouvi de diversas pessoas que o ministério pré indicado com 100% de homens não devia ser pauta de discussão porque o que estava em jogo era “algo muito maior”. O problema político e econômico brasileiro é grave, mas o problema de dezenas de milhares de mulheres que apanham no país também é muito grave.

O que as pessoas não entendem é que o papel do Michel Temer é ajudar a resolver os problemas políticos e econômicos brasileiros e TAMBÉM ajudar a resolver a condição subordinada da mulher na sociedade brasileira. As mulheres são a maior parte da nossa população e PRECISAM se afirmar para que casos como o da Luisa Brunet (e dezenas de milhares de vítimas que não conhecemos) diminuam tendendo a zero!

Tenho certeza absoluta que há mulheres tão ou mais qualificadas do que alguns ministros homens indicados por Michel Temer. O presidente apenas explicitou nossa cultura mais arcaica do que a tribal em escolher somente homens como os poderosos da república.

O ministério masculino de Michel Temer é, tambem, culpado pelo soco na cara que a Luisa Brunet levou. O presidente em exercício prestou um desserviço ao país e não nos ajudou a desconstruir um problema histórico da nossa sociedade.

(1) Karl Marx

 

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