O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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O grande problema ambiental brasileiro

A foto acima é emblemática. No centro da imagem é possível uma gigantesca mancha de dejetos humanos e lixo sendo jogados sem qualquer tratamento na costa do Rio de Janeiro, a poucos quilômetros da praia de Ipanema. Mais do que um problema ambiental, o registro escancara uma deficiência cultural inerente ao nosso país e que precisa ser atacada se efetivamente quisermos nos tornar uma sociedade mais civilizada. 

A poluição inconsequente de uma das praias mais famosas do mundo demonstra que não há saneamento básico nem mesmo nas regiões desenvolvidas e ricas do país. O lançamento em questão parte de um emissário submarino que coleta não apenas dejetos humanos, mas também lixo hospitalar, preservativos, absorventes e tudo mais que é incorretamente descartado no vaso sanitário por centenas de milhares de pessoas. Este caldo "sujismundo" é coletado e sumariamente lançado no mar sem nenhum tipo de filtragem primária ou separação de residos sólidos. 

Mudanças de maré e condições climáticas fazem com que todo este lixo e esgoto retornem com frequência ao ponto de partida, contaminando as praias cariocas com microorganismos denominados superbactérias e deixando um rastro de destruição na fauna e flora da região.

O que dizer então de nossos rios e lagoas? A impressão que tenho é que a população simplesmente aceita que o ecossistema hídrico da Barra da Tijuca esteja em estado de putrefação avançado, que a Baía de Guanabara continue a ser um dos maiores valões do mundo ou que a lagoa Rodrigo de Freitas mantenha sua produção usual de centenas de toneladas de peixes mortos. Uso o exemplo do Rio por ter nascido e vivido na cidade por mais de trinta anos, mas o quadro é semlhante em todo o país. 

A preocupação dos governos recentes em focar a discussão de questões ambientais unicamente no problema da mudança climática é um equívoco. Por mais que tal debate em órgãos multilaterais seja importante, os problemas de saneamento em nossas ruas, bairros e cidades são muito mais danosos ao meio ambiente e à população do que os efeitos causados pelo aquecimento global, ao menos no presente momento.

Em que pese a complacência dos órgãos públicos, como já antecipado, o problema ambiental brasileiro não e causado unicamente pelo desleixo dos políticos.

Os cariocas, conhecidos por suas praianas paixões, parecem não se importar com o lançamento de esgoto "in natura" a poucos quilômetros de onde colocam seus filhos para nadar. Por desconhecimento ou desinteresse, a situação permanece inalterada deste a construção do emissário, na década de 1970. Quantos moradores dos prédios da Barra procuram saber como funciona o sistema de esgoto de seus condomínios? A degradação das lagoas da Tijuca e de Jacarépaguá não é causada apenas pela poluição oriunda dos córregos que cortam as favelas de Rio das Pedras ou da Cidade de Deus, mas também pelos escoadouros clandestinos de diversos complexos residenciais de alto padrão que as margeiam. 

Resido há cerca de um ano na Alemanha, nos arredores de uma das maiores fábricas do mundo e da sede mundial da Volkswagen. A produção massiva de automóveis e uma gigantesca cadeia de fábricas de autopeças e equipamentos industriais não impede que o ar seja respirável e que os lagos e rios da região sejam próprios para refrescar o corpo e a garganta.

Há alguns anos, a chanceler Angela Merkel tomou a decisão estratégica de tornar a produção de energia da Alemanha menos dependente das usinas nucleares. Parques eólicos estão por toda parte, principalmente na região norte do país. Esta escolha não foi motivada unicamente por conselhos de seus assessores e ministros, mas sim por uma onda de protestos contra resíduos radioativos que estavam sendo alocados no subsolo de regiões rurais. Fazendeiros e residentes dos vilarejos campestres iniciaram a campanha contra o lixo atômico em um movimento que rapidamente se espalhou por todo o país e forçou a ação por parte dos mandatários.

Outro exemplo interessante é a separação do lixo, algo que apenas há alguns anos tem ganhado alguma visibilidade no Brasil. Independente de classe social, todos os alemães agem de forma semelhante com relação à sua produção de lixo, separando em casa matéria orgânica, plástico e lixo e levando semanal ou mensalmente as garrafas de vidro para contêineres ou máquinas de reciclagem. Esse sistema pode ser cansativo quando consideramos as filas eventuais nos postos de coleta e as condições climáticas nem sempre agradáveis. Acostumado às regalias de condomínios brasileiros de classe média, onde os porteiros tratam o lixo como o emissário submarino de Ipanema trata o esgoto, foi algo que demorei um pouco a me acostumar, mas que hoje reputo essencial para termos uma vida mais sustentável.

Em suma, não há como esperar que nossa classe política pense de forma estratégica se nosso próprio povo demonstra não se importar com a imundície que o rodeia. A usual opção de se optar sempre pelo caminho mais fácil e menos tortuoso e de não atacar os problemas em sua raiz têm consequências catastróficas para o meio ambiente.

A proteção de nossos ecossistemas demanda menos palavras e mais atitudes. É preciso que deixemos nossa zona de conforto, que poupemos mais e consumamos menos, que olhemos para nossas próprias atitudes e nossos hábitos de modo a verificar o que é supérfluo e o que podemos fazer para reduzirmos nosso rastro de sujeira.

Por fim, ressalto que a responsabilidade ambiental não pode ser interpretada como mais um bastião da luta político-ideológica. Deve, por outro lado, ser uma preocupação universal. Evidentemente, a baixa educação de nosso povo, tal como analisado no primeiro da série de posts “O grande problema brasileiro”, é um obstáculo para o aprofundamento da discussão em nossa sociedade. Cabe aos que se julgam mais “esclarecidos” a tarefa de propagar a importância da consciência ecológica e da sustentabilidade.

Não obstante, considerando o registro fotográfico acima, nossa população mais abastada parece não se importar em continuar a varrer o lixo para baixo do tapete...

  

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