O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

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Chico Buarque defende o Governo. E daí?

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Um dos maiores ícones da história da música popular brasileira, Chico Buarque está em pauta de novo. E não é porque lançou um novo disco ou porque está saindo em turnê pelo país. Chico está em evidência mais uma vez por causa de sua militância política. O artista resolveu participar ativamente da campanha contra o impeachment da Presidente Dilma Rousseff.

Ativista político desde a década de 1960, Chico Buarque ficou conhecido por suas canções de protesto durante a ditadura militar e desde a década de 1980 se tornou eleitor e militante do Partido dos Trabalhadores. Chico esteve presente em todas as campanhas presidenciais petistas desde 1989 até a campanha de Dilma em 2014. Dessa maneira, não se trata de supresa alguma que agora ele esteja engajado na defesa do mandato da Presidente. O que causa surpresa é o quanto isso ainda causa comoção.

Através das redes sociais, vemos uma enxurrada de vídeos, textos, cartas e tudo o que possa se imaginar relacionado a atuação política de Chico Buarque. Temos gente elegendo-o como um mensageiro dos pobres e oprimidos, um baluarte da democracia, assim como outros o colocam como um sujeito conivente com a corrupção governista por ser beneficiário de projetos incentivados através da Lei Rouanet. Para se ter uma ideia, enquanto milhares de pessoas foram ao Largo da Carioca para vê-lo discursar em defesa do governo na última quinta-feira, outros milhares compartilharam nas redes sociais uma carta aberta em repúdio a sua atuação política, e outros tantos se engajam em um tolo boicote a artistas de esquerda promovido pelo economista Rodrigo Constantino. Chico virou uma referencia para os dois lados do debate. Mas será que é para tanto?

Chico Buarque, como qualquer cidadão, tem todo o direito de manifestar suas ideias, da mesma forma que diversos outros artistas têm feito recentemente. O cantor e compositor Lobão, o ator Carlos Vereza e o apresentador Danilo Gentili por exemplo se posicionam com frequência a favor do impeachment. Já os atores Wagner Moura e Gregório Duvivier, além de Tico Santa-Cruz, vocalista da banda Detonautas, assim como Chico, defendem a permanência da Presidente. Faz parte do jogo democrático e obviamente figuras públicas possuem visibilidade maior mesmo quando se envolvem em temas que não são do seu domínio, e é nesse ponto que quero chegar.

Deve-se tomar extremo cuidado para não misturarmos o artista com o cidadão. Não é porque admiro o trabalho de um artista que devo concordar com sua visão de mundo. Da mesma forma, não é porque não concordo com seu posicionamento político que vou deixar de admirar seu trabalho e vou deixar de respeita-lo como pessoa. Uma coisa não guarda relação com a outra. Estamos dando muita importância para a opinião de artistas. Eles não são especialistas no assunto. Nenhum deles estudou ciências políticas, sociologia, economia, jornalismo ou direito. Não que isso desqualifique suas opiniões, mas apenas evidencia que não são catedráticos e suas posições são tão relevantes quanto a de qualquer um de nós.

Chico é e sempre será uma referência na cultura brasileira. Seu currículo é inquestionável. Entretanto, embora mereça respeito, seu posicionamento político é bem menos relevante do que se pensa. Chico, assim como qualquer outro artista, não deve ser tratado como referência em algo que não é. No final das contas, nada melhor que a definição do ator Kevin Spacey para a importância do posicionamento político de um artista: "A opinião de um ator sobre política não importa merda nenhuma". É bem por aí mesmo. Não que não importe "merda nenhuma", mas importa tanto quanto qualquer outra.

 

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