O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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Don Corleone dá uma aula de política aos brasileiros

No último domingo, o Brasil mais uma vez foi as ruas expor sua opinião sobre o processo de impeachment da presidenta afastada Dilma Roussef.

 Em todas as manifestações que ocorreram desde março de 2015, o que salta aos olhos são algumas manifestações raivosas e um discurso de ódio que tem imperado na sociedade brasileira.

 Em um de seus livros mais famosos, As Regras do Método Sociológico, Émile Durkheim nos traz apontamentos que buscam explicar que tipo de coerção existe na sociedade que faz com que indivíduos já tenham raciocínios que não os permitam questionar algumas atitudes tidas como inconcebíveis socialmente. Em determinado momento, o sociólogo francês diz:

 “Quando reparamos nos fatos tais como são, e como sempre foram, salta aos olhos que toda educação consiste num esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não teriam chegado espontaneamente”.

 Em qual momento a sociedade brasileira foi educada a odiar uns aos outros pelas suas posições políticas?

 A atriz Letícia Sabatella foi agredida verbalmente e “xingada”[1] de puta, e outros improprérios, por dezenas de pessoas somente por expor seu ponto de vista político. O Alexandre Frota destilou ódio em um “discurso” na Avenida Paulista contra seus ex-ídolos - que não são mais ídolos porque agora ele descobriu algumas divergências políticas.

 Que raiva é esta?

 Mais uma vez, Émile Durkheim nos trás apontamentos que mostram em quais momentos as pessoas perdem a capacidade de pensar/refletir e também busca compreender o que faz com que indivíduos, em algumas situações, abdiquem da razão e percam qualquer tipo de civilidade no convívio social, gerando, desta forma, ações catastróficas sem o menor sentido. Diz ele:

 “É por isso que indivíduos perfeitamente inofensivos em sua maioria podem, quando reunidos em grupos, deixar-se arrastar a cometer atrocidades. Ora o que dizemos destas explosões passageiras aplica-se também aos movimentos de opiniões mais duradouros que se produzem permanentemente à nossa volta, quer em toda a extensão da sociedade, quer em círculos mais restritos, em questões religiosas, políticas, literárias, artísticas etc”.

 Ao ver pais e mães levando crianças para o meio de multidões e obrigando-as a presenciar discursos de ódio, eu fico desiludido com nosso futuro, pois já as prevejo adultas reproduzindo tais atrocidades. Elas estão sendo educadas para odiar quem pensa diferente.

 A política clama pela racionalidade. Não há inimigos na política. Há, no máximo, adversários políticos, e que precisam ser confrontados com argumentações e nunca com xingamentos e agressões. Inclusive, devemos ter em mente que um adversário político pode ser adversário em alguma questão/momento e também aliado em alguma outra questão/momento. Mas isso só se descobre utilizando discernimento isento de qualquer passionalidade e não deixando com que a raiva, ódio e rancor nos ceguem.

 Don Corleone, personagem de Marlon Brando no filme O Poderoso Chefão, ensina algo que alguns brasileiros e brasileiras deveriam aprender: “Nunca odeie seus inimigos, pois isso pode atrapalhar seu raciocínio”.

 Don Corleone e a máfia italiana sabiam como tratar seus adversários e sabiam que esta é uma questão chave na arte de fazer política.

 O Brasil padece pela falta de raciocínio.

 Que O Poderoso Chefão nos sirva de lição.

 


[1] Entre aspas porque não acreditamos que puta seja um xingamento.

O fetiche pelas vaias

As manifestações murcharam