O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Ideologia, ditadura e liberdade

Segundo um escritor italiano chamado Antonio Gramsci, que escreveu entre as décadas de 1920 e 1930, a “ideologia” nada mais é do que uma teoria que se naturaliza nos pensamento das pessoas e acaba por controlar as reflexões de uma determinada sociedade em um determinado tempo histórico (obviamente estou fazendo uma redução maldosa de toda reflexão brilhante a respeito do conceito de ideologia desse autor italiano).

Devemos ter em mente que as teorias são formuladas com o intuito de se firmarem no campo de embate entre as próprias teorias. Nenhuma teoria está livre de isenção das ideologias que a antecederam.

Tomemos muito cuidado com isto, pois nós estamos impregnados de teorias - e ideologias - que foram feitas para impregnar e direcionar nossos pensamentos.

Na semana passada, o líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, faleceu e uma das maiores críticas que se faz ao regime castrista é que na ilha caribenha as pessoas têm suas liberdades individuais tolhidas e não podem ir e vir livremente.

Refletindo sobre a morte de Fidel Castro e observando a paixão e o ódio, carregados de ideologias, com que as pessoas comentavam sobre sua vida, eu lembrei algo muito interessante que me aconteceu a alguns anos atrás.

Eu estava fazendo um passeio por uma praia de pescadores próxima a Natal (Rio Grande do Norte) e estava maravilhado com a beleza daquele lugar. Num determinado momento, eu vi um pescador, na beira do mar, retirando os peixes que havia fisgado em sua rede de pesca. Não me contive e fui conversar com ele. Tinha em mente dizer o quanto eu o invejava por ele viver em um lugar tão bonito e em contato diário com uma natureza tão sensacional.

Em meio a nossa conversa ele me disse que trabalhava com seu pai e seus tios pescando e vendendo os peixes para os restaurantes da região. Disse que nunca havia saído daquela comunidade de pescadores, mas que amava o lugar onde morava e sabia que era um privilegiado por viver ali. Nesse momento, eu o questionei:

- Mas você tem vontade de conhecer outras praias aqui do Rio Grande do Norte?

- Tenho sim, moço, dizem que a praia do Morro Branco é muito bonita.

- Ué, e por que não vai?

- Porque não posso, moço.

Eu, na minha ingênua ignorância, retruquei:

- Por que não pode?

E veio o tapa na minha cara:

- Porque não tenho dinheiro.

Ele queria ir, mas não podia ir.

Estou citando esse diálogo porque nós estamos acostumados a acreditar que todos nós temos o direito de ir e vir garantidos.

Quem tem o direito de ir e vir garantido?

Na verdade, em boa parte do mundo, só pode ir e vir quem tem dinheiro para circular livremente.

Se em Cuba as pessoas não tem esse direito garantido por via política, o pescador, que citei acima, não tem esse direito garantido pela via econômica (e assim como ele 90% da população brasileira também não tem).

É caro ir e vir aqui no Brasil. Em São Paulo, onde moro, a passagem de ônibus/metrô custa R$3,75. Para uma família de 5 pessoas, que mora na periferia da cidade, ir e vir, num passeio de final de semana, gastará quase R$40,00 só de transporte “público”.

Vi muita gente bradando: “O governo cubano proíbe as pessoas de saírem de Cuba” e eu vos pergunto: “Quem, DE FATO, pode viajar para fora do Brasil?”. Em 2014 e 2015 menos de 5% de toda população brasileira viajou para fora do país[1]. Ou seja, uma parcela ínfima que corresponde a ponta da pirâmide das pessoas mais ricas do país.

A liberdade das pessoas pode ser cerceada de muitas formas e a forma econômica é uma delas.

Será que a ideologia de uma suposta liberdade política não está camuflada por uma suposta ditadura econômica?

Não estou dizendo que a falta de liberdade em ir e vir no Brasil seja igual ao de Cuba e, também, não estou fazendo apologia ao regime cubano em detrimento ao que temos no Brasil.

Apenas acho interessante mantermos o senso crítico em alerta porque há uma ideologia dominante em nossa sociedade que nem sempre corresponde a realidade.

As pessoas acreditam que possuem direitos (só porque a legislação não proíbe), mas DE FATO não podem gozar desses direitos porque a exclusão econômica se sobrepõe à inclusão política e jurídica.

Isso não vale apenas para o direito de ir e vir. Vale, também, para uma série de outras questões que não me aprofundarei neste texto.

Critiquemos nossa realidade e tomemos cuidado com as ideologias que nos vendem.

 

[1] Dados dos relatórios anuais da ANAC. 

Fidel, o totalitário

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