O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Medida Provisória 746/2016

Quem estuda o processo de escravidão do Brasil se depara com algumas das maiores crueldades que o homem já foi capaz de produzir.

Para começar, quando ainda estavam em seus países na África e iam embarcar rumo ao Brasil, nunca uma mesma família embarcava com o mesmo destino. Sabendo que na África existiam diversos idiomas nativos e dezenas de religiões diferentes, era um pressuposto que se misturassem negros e negras de diversas partes da África, pois, assim, eles não poderiam se comunicar entre si e, portanto, não se organizariam contra as barbáries que seriam acometidos.

Dizem que durante a travessia do oceano, os escravizados eram obrigados a cantar diversas canções com mensagens subliminares (ou não) do que estaria por vir em suas vidas. Uma das canções que se tem notícia, era mais ou menos assim: “Trabalha, trabalha, negro, trabalha para se cansar. O negro que não trabalha apanha para trabalhar”.

Chegando por aqui, uma das práticas mais comuns era colocar os escravizados nas chamadas “rodas do esquecimento”. Um tipo de ritual em que os negros e negras ficavam por horas dando voltas em alguma árvore, ou algo do tipo, para que esquecessem de suas origens, de suas terras, da sua história, da sua identidade etc. Cada volta representava a morte de alguma memória que eles e elas traziam desde seu nascimento.

Tudo isso pra quê?

Tudo isso para que os escravizados não pudessem pensar/refletir e, consequentemente, para que não questionassem sua condição de vida.

Essas práticas perduraram no Brasil por quase 400 anos e seu fim é tão recente que deve estar completando quatro gerações agora.

Mas não precisamos ir tão longe no tempo para verificarmos práticas como estas.

Ao fim da II Guerra Mundial, todos os nazistas foram caçados como bichos. Ao serem “capturados” eles e elas eram levados a um tribunal que já tinha suas sentenças prontas. Independentemente do tipo de crime que aquele nazista tivesse cometido ou se em algum momento ele vestiu um paletó com a suástica, este devia ser condenado sumariamente.

Em 1961, 15 anos após o término da II Guerra Mundial, e com a maioria dos nazistas já presos e condenados, um novo soldado, Adolf Eichmann, - que ainda estava foragido - foi preso, e imediatamente levado a um tribunal em Israel para seu julgamento. Uma ampla cobertura internacional foi montada para que o mundo pudesse acompanhar a condenação de um monstro, a exemplo disso a filósofa judia Hannah Arendt foi cobrir o julgamento para a revista The New Yorker.  

O ex-soldado nazista Adolf Eichmann era acusado de crimes contra a humanidade, porém no decorrer do julgamento, ficou claro que a função desse soldado era apenas fechar as portas dos trens que levavam os judeus para os campos de concentração. Por diversas vezes, Adolf Eichmann disse que não tinha nada contra os judeus e que nem sabia direito para onde aqueles trens estavam levando aquelas pessoas. Repetidamente ele dizia: “eu só cumpria uma função: a de fechar as portas dos trens. Mandaram eu fazer isso e eu cumpria. Simples assim”.

Todos estavam sedentos pela condenação de mais um nazista, no entanto, Hannah Arendt fez uma análise do julgamento que foi na contramão de todo o resto da mídia. Em seu artigo para a revista The New Yorker, a filósofa alemã afirmou que Adolf Eichmann não era o monstro que todos estavam querendo que fosse. Ele era, até, inofensivo, pois não passava de um mero executador de tarefas. E mais, uma tarefa extremamente simples: fechar portões de trens.

Apesar de um mero executador de tarefas, Hannah Arendt fez uma pesada acusação ao ex-soldado nazista. Ela disse que Adolf Eichmann abriu mão do que há de mais humano nos homens, que é justamente o fato de pensar/refletir. Ao fechar as portas dos trens sem se questionar o que estava acontecendo, Adolf Eichmann abriu mão da reflexão e, por isso, deixou sua humanidade de lado. Pelo fato de não se questionar para onde ia o trem ou o que acontecia aos judeus quando chegava nos campos de concentração, o ex-soldado nazista abdicou de sua humanidade e se transformou meramente num executador de tarefas, assim como os donos de escravizados queriam que os negros e negras fossem aqui no Brasil.

Não pense, trabalhe!

A Medida Provisória lançada ontem pelo presidente Michel Temer evidencia o caráter de uma formação não reflexiva dos nossos jovens.

A ênfase que o governo quer dar à formação média de nível técnico/profissionalizante mostra que as formas de alienar a reflexão da população mudaram, mas o objetivo final é o mesmo.

Não pense, trabalhe!

É um crime você colocar jovens com 14 ou 15 anos para começar uma formação profissional. Aliás, esta é mais uma aberração brasileira e dos países pobres. Os jovens da Europa - e muitos dos Estados Unidos - só vão começar a trabalhar após o fim da faculdade (isso quando não tiram o tal “ano sabático” para viajar o mundo após o término dos estudos).

Não façamos isso com nossas crianças. Coloquemos mais ênfase em português/literatura, humanas, exatas, biológicas, artes e educação física. Deixemos que os jovens escolham sua formação técnica mais à frente.

Precisamos de pessoas pensantes e não meros cumpridores de tarefas. A história já mostrou o desastre que se torna a humanidade quando o homem deixa de pensar/refletir e passa a apenas executar.

Colocar um jovem de 14 ou 15 anos para fazer um curso profissionalizante pela manhã e estagiar à tarde (muitas vezes para compor a renda da família) me fez pensar numa atualização da música mencionada no começo deste texto:

“Trabalha, trabalha, criança, trabalha para se cansar. A criança que não trabalha vai ser obrigada a trabalhar”.

 

*Dica: Assistam os filmes “Tempos Modernos” e a “A Banalidade do Mal” (ambos estão disponíveis gratuitamente no youtube) 

Ainda sobre a "mini-reforma educacional"

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