O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

A burguesia tupiniquim

O termo burguesia se originou dos “burgus” que eram - na Idade Média - pequenos vilarejos fortificados com características locais bem específicas. Muitas cidades que conhecemos hoje são derivadas destes vilarejos, como por exemplo, Luxemburgo, Edimburgo, Hamburgo, Gotemburgo, Joanesburgo etc.

A burguesia era o grupo de pessoas que realizavam as trocas de mercadorias entre estes vilarejos e que foram enriquecendo junto à intensificação do fluxo de comércio ao redor do mundo durante os séculos XVII e XVIII.

Por conta deste forte enriquecimento por parte daqueles que comandavam o comércio entre os burgos, a burguesia pôde fazer frente ao sistema absolutista que imperava na Europa com o poder concentrado nas mãos do Rei e da Igreja e, assim, tomar conta do controle político do Estado encabeçando as grandes transformações da sociedade moderna cristalizadas nas Revoluções Francesa, Industrial e de independência dos Estados Unidos.

A burguesia foi, portanto, o grupo de pessoas que ao enriquecer por conta do desenvolvimento do comércio e da indústria conseguiu ditar a direção que a sociedade tomaria.

Pois bem, mas quem é a burguesia brasileira?

Quando Portugal chegou ao Brasil, sua população não alcançava nem um milhão de habitantes (sendo que quase 30% era de escravos). Desta forma, o país lusitano tinha um grande problema para povoar um território tão imenso quanto o brasileiro.

Sendo assim, a coroa portuguesa decidiu resolver esta questão entregando o projeto de povoar a nova terra à iniciativa privada. O rei de Portugal convocou alguns fidalgos (quer dizer “filho de algo”, ou seja, não era nem nobreza e nem aristocracia) e dividiu todo o território recém “descoberto” nas capitanias hereditárias deixando toda a atividade de exploração destes fidalgos sob tutela deles próprios, desde que eles pagassem 1/5 (o quinto) de imposto ao rei português por toda riqueza retirada das terras tupiniquins.

E assim se deu.

O Brasil nasceu privatizado com a concentração de terra dividida em 14 famílias (as 14 capitanias hereditárias) e com uma mentalidade de se apropriar de toda riqueza aqui encontrada e/ou construída.

É óbvio que de lá para cá muita coisa mudou e que temos uma burguesia que se fixou no país.

Mas é óbvio, também, que a burguesia brasileira não possui condições históricas e nem materiais para fazer frente ao processo de desenvolvimento do país.

Autores como Florestan Fernandes, Caio Prado Jr., Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado etc atestam em seus estudos a incapacidade de a burguesia brasileira conseguir manter por si só o desenvolvimento político, social e econômico do Brasil - como fizeram as burguesias internacionais em seus “burgus”.

Antes de o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o proprietário da gigante do comércio varejista, Lojas Riachuelo, deu uma entrevista dizendo que “assim que a Dilma cair, no dia seguinte os empresários brasileiros voltam a investir na economia nacional”.

Mentira! Nunca foi assim! A Dilma caiu e o país se arrasta pela crise sem ter horizonte de saída sustentável.

A pequena alta no PIB deste primeiro trimestre não quer dizer absolutamente nada em relação ao processo de crise que o país vive atualmente. Não há exemplos de países que viveram eternamente em recessão econômica. Mais hora ou menos hora o PIB teria que voltar a crescer, mas isso não significa que estamos saindo da crise e muito menos que a nossa burguesia (ou empresariado) seja capaz de direcionar o futuro da nação conforme seu próprio destino.

A burguesia brasileira é débil e prepotente. A fala do dono da Riachuelo mostra bem isso.

Um futuro candidato a presidente da república em 2018 disse uma frase que eu gosto muito. Disse ele: “Não sou a favor do Estado inchado e nem do Estado mínimo. Sou a favor do Estado necessário”.

É isto mesmo! No Brasil, neste momento, não há que se falar em entregar, ainda mais, as atividades à iniciativa privada, mas sim em uma reforma gerencial e administrativa do Estado para que este funcione de forma mais eficiente.

Que fique claro que não sou contra a iniciativa privada. Eu sei que ela é extremamente importante no desenvolvimento de um país e acho que devemos estimulá-la. Mas, enquanto o Brasil não tiver uma classe de pessoas capazes de defender os interesses nacionais de forma republicana e não tentando se apropriar do que é público, o Estado brasileiro vai continuar sendo necessário para balancear as contradições dos interesses privados que perseguem o país desde sua origem.

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