O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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2017?

Ruínas de Aleppo, na Síria.

Ruínas de Aleppo, na Síria.

A instabilidade que assola o mundo no apagar das luzes de 2016 não encontra precedentes na história recente. Em praticamente todos os continentes, forças políticas, econômicas e militares lançam um véu de incertezas que nos levam a perguntar se 2017 será o ano da redenção ou do mergulho no caos total.

Na América do Sul temos a depressão econômica de seu maior país e a verdadeira crise humanitária vivenciada pela Venezuela. Na do Norte, a incógnita representada pela ascensão de Donald Trump à Casa Branca. Do outro lado do Atlântico, o velho mundo cambaleia em meio aos reiterados atentados terroristas e por conta da possível ruína do projeto europeu de unificação. No Oriente-Médio e na África, o histórico de conflitos não parece que terá fim tão cedo. Por fim, na Eurasia oriental, diferentes instabilidades locais como a que envolve as duas Coréias e o projeto "Putiniano" de recuperação da influência global soviética progridem.

O que poderá ocorrer nos próximos meses é uma incógnita. Qual a estratégia que será adotada por Trump? Será que seus comentários pitorescos no Twitter se materializarão em um catastrófico comandante-em-chefe? Qual será a reação dos países europeus, especialmente da Alemanha, com relação aos sanguinários ataques de extremistas em seus territórios? Como é possível achar uma solução para o desumano conflito na Síria? Por fim, o que talvez menos interessa ao mundo, mas que nos é extremamente relevante, o que será do Brasil no futuro próximo?

Ainda que tenha moderado um pouco o tom após sua eleição, Donald Trump continua dando claros sinais de que seguirá uma linha oposta à de Barack Obama em praticamente todos os segmentos, da economia à diplomacia. Um dos pontos que trará mais consequências para o Brasil será a gestão monetária, especialmente no que se refere aos juros da dívida pagos pelo Federal Reserve. Estáveis há anos, Trump já indicou várias vezes que poderá subi-los, o que significaria que investidores ao redor do mundo iriam optar por investir diretamente nos Estados Unidos, ao invés de correr riscos em países em desenvolvimento. Além de dificultar a recuperação de nossa economia, esta estratégia contribuiria decisivamente para uma desvalorização ainda mais intensa do Real.

O fato é que a economia americana não tem se recuperado como o previsto. Já se vão nove anos desde a crise de 2008 e o crescimento dos EUA ainda patina. Era esperado que uma administração republicana reavive os cânones do liberalismo econômico. Como Donald Trump não é um republicano clássico, entretanto, todas estas certezas podem ser desfeitas em um estalar de dedos.

Do outro lado do Atlântico, o desmoronamento da União Europeia continua sendo uma possibilidade reforçada a cada novo ataque terrorista. O recente incidente em Berlim, onde o suspeito foi posteriormente morto na Itália, reforça a preocupação dos europeus com o sistema de livre circulação de pessoas. O fato da Alemanha estar sendo alvo de repetidos ataques acarreta um fortalecimento progressivo das forças ainda mais à direita da já conservador União Democrática Cristã, partido de Ângela Merkel. Dado o histórico do país e do próprio continente, estas tendências não deixam de ser preocupantes.

Se há instabilidade no centro, na periferia a situação certamente não é mais reconfortante. Difícil recordar um período na história onde a vizinhança da Europa esteve em estado tão caótico. Tendo como epicentro a Síria, mas com reflexos intensos também na Turquia, as dificuldades vivenciadas no norte da África e no Médio-Oriente apenas refletem as divergências religiosas, étnicas e territoriais locais, potencializadas pelas tensões entre as novas e antigas potências globais. Enquanto Estados Unidos, União Europeia e Rússia não chegarem a um acordo, cenas como as vistas em Aleppo se repetirão indefinidamente. Não há dúvidas que Bashar Al Assad é um tirano, mas será que uma eterna guerra civil ou a tomada do poder pelo Estado Islâmico é uma solução melhor do que um regime autoritário minimamente estável?

De volta ao Brasil, após um 2016 desastroso e repetidos anos em recessão, as perspectivas de crescimento próximo a zero para 2017 não são extremamente alentadoras. A desastrosa condução fiscal nos últimos anos não tem precedentes. A década de 1980, considerada perdida com um crescimento médio de 1,6%, poderia ser comparada a um milagre econômico quando contrastada com o atual decênio. 

Não há outra solução possível para a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro sem a retomada de um crescimento sustentável que só pode ser viabilizada com o reequilíbrio das contas públicas federais, estaduais e municipais e aprovação de profundas reformas de natureza fiscal, política e social. O governo-tampão do velhaco Michel Temer, longe de resgatar o orgulho do brasileiro ou fomentar a união nacional, ao menos tem posto na ordem do dia projetos que já deveriam ter sido aprovados há muito, em especial a reforma da previdência e a flexibilização das leis trabalhistas. 

As reiteradas revelações das investigações atualmente em curso no país tornam possível, contudo, que Temer sequer consiga cumprir o mandato restante. Figuras como Fernando Henrique Cardoso ou Nelson Jobim são usualmente apontadas como possíveis substitutos em uma eleição indireta realizada no Congresso. Independente de reviravoltas políticas, como defendido no post anterior, um país só pode ser bem-sucedido, se os projetos de relevante interesse nacional se sobreponham à eventuais modificações, por vezes traumáticas, nas estruturas de poder. As conquistas ou propostas de uma administração não podem ser sabotadas com a ascensão de um grupo rival. Do contrário, o país andará em círculos e nenhuma medida estruturante de longo prazo será efetivamente implementada. 

Veremos aonde 2017 nos leva, não apenas enquanto brasileiros, mas como integrantes da coletividade humana.

O gari e o doador

Grajaú, Síria e o Natal