O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

O Brasil perdeu a sensibilidade para o absurdo

A frase não é minha, na verdade foi dita pelo cineasta José Padilha, roteirista e diretor do filme Tropa de Elite, durante uma entrevista em que explicava as razões pelas quais se mudou do Rio de Janeiro para Los Angeles recentemente. Porém essa frase parece bastante apropriada diante da cena que vimos na última quinta-feira, feriado de Tiradentes, no Rio de Janeiro: dois corpos de vítimas da queda de parte da ciclovia da Avenida Niemeyer estirados na areia enquanto jovens se divertiam jogando "altinha" como se nada de extraordinário tivesse ocorrido. A imagem chocou o país e mostrou a que nível chegou a banalização da vida humana e a naturalidade com que encaramos o absurdo no Brasil.

Desde os tempos de minha avó, dizia-se que o Brasil era o país do futuro. Não era para menos, afinal temos recursos naturais em abundância, nosso clima é favorável, não somos atingidos por grandes catástrofes naturais, temos uma população jovem e uma diversidade cultural rara. Tínhamos tudo pra ser uma potência econômica e intelectual, mas por alguma razão, seguimos perdendo oportunidades e vendo o bonde da história passar pela nossa frente.

Em 2014, lideramos o ranking mundial de homicídios entre os países que não enfrentam nenhum tipo de guerra, e de acordo com o Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), 10% dos assassinatos do mundo ocorrem no Brasil. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015 tínhamos o 5º trânsito mais perigoso das Américas e 33º do mundo. No início do ano, a Transparência Internacional divulgou que estamos no 76º lugar em um estudo que avalia os países menos corruptos do mundo. Estamos na 60º colocação entre 76 países em um ranking de educação, divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e segundo relatório feito pela Bloomberg em 2013, ocupamos a última colocação entre 48 países analisados em um índice que mede a eficiência do sistema de saúde.

Nos acostumamos com a mediocridade. Passamos a entender como normal que os serviços prestados pelo Estados sejam de má qualidade. Aceitamos com naturalidade que os níveis exorbitantes da violência urbana são inerentes à qualquer grande cidade do mundo. Admitimos pagar uma taxa tributária escandinava para recebermos em troca serviços com a qualidade semelhante a alguns dos países mais pobres da África. Perdemos a capacidade de nos indignar. Aceitamos o absurdo como se fosse algo banal.

Diante desse cenário, a imagem da praia de São Conrado foi apenas mais um capítulo dessa triste história: uma ciclovia, que custou ao Estado R$ 45 milhões e foi entregue há apenas 3 meses a população, que desaba e mata duas pessoas. Isso por si só deveria ser razão suficiente para exigir a renúncia do Prefeito da cidade. Mas tratamos com certa naturalidade, com conformismo e parece haver uma espécie de crença fatalista, onde acreditamos estar destinados a enfrentar tais adversidades. Aceitamos tudo de maneira apática e ficamos a espera de um milagre. Enquanto isso continuamos jogando "altinha", curtindo o carnaval e tomando chopp no Jobi... E vida que segue... De fato perdemos a sensibilidade para o absurdo.

Rejeição Geral

Um país de concurseiros