O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

O paradoxo do hipster e do japonês da polícia federal

Nas épocas das grandes fazendas de cana de açúcar ou das imensas plantações de café, tanto os senhores de engenho quanto os barões do café moravam em casas muito semelhantes e que ficaram conhecidas como casa grande. 

Essas casas tinham uma estrutura muito parecida. Todas elas possuíam uma pequena escada que levava até a uma enorme varanda que dava a volta pela casa inteira e onde tinha a porta de entrada principal. Já dentro da casa, havia o hall de entrada, um salão de festa, uma sala de charutos para os cavalheiros, um grande corredor que dava para uma sala de estar, após a sala de estar encontravam-se os quartos, um quarto para a senhora se vestir, uma alcova, uma capela, uma sala de almoço, uma sala de jantar e a cozinha. Já do lado de fora - aos fundos da casa - ficava uma área para se lavar e estender as roupas, um espaço para criação de porcos, galinhas etc e após tudo isso vinha a senzala onde dormiam os escravos.

Recentemente eu estava parado no trânsito de São Paulo e uma garota veio me entregar um folder com o lançamento de um apartamento num bairro de classe média da cidade. Como todo bom folder que se preze, ele tinha a planta do apartamento e como o trânsito não andava eu fiquei lendo o tal panfleto. O apartamento me pareceu ser bastante confortável. Ele tinha uma enorme sacada que dava para colocar algumas cadeiras, uma mesa e renderia uma boa reunião de amigos, tinha também uma boa sala à direita que poderia muito bem acolher uma sala de estar e uma sala de jantar, à esquerda vinham os três quartos (uma suíte com um grande closet para os donos do apartamento se vestir e mais dois bons quartos para as crianças), entre a sala e o corredor com os quartos - um pouco ao fundo - vinha um pequeno corredor que tinha um lavabo para as visitas à esquerda e em sua frente a porta para a cozinha. Uma cozinha muito espaçosa, uma ampla área de serviço e após tudo isso vinha a senzala ... digo o quartinho da empregada.

Pouco a frente de onde recebi esse folder, eu vi uma pichação num viaduto escrito: “Você não está parado no trânsito ... VOCÊ É O TRÂNSITO”

Eu tenho pensado muito nas contradições que a nossa sociedade está vivendo.

Essa semana, um agente da Polícia Federal fez um enorme sucesso, pois trava-se de um sujeito bonito que tinha acompanhado Eduardo Cunha no momento de sua prisão.

Logo ele ocupou o espaço deixado por outro agente da Polícia Federal que também fez sucesso. Trata-se de um japonês que sempre estava presente nas prisões da Lava Jato.

No entanto, o que me chama a atenção é que o tal japonês da federal era indiciado e foi preso por facilitar o contrabando de produtos paraguaios no Brasil. Da mesma forma que o hipster da federal foi afastado do Comando de Operações Táticas por utilizar uma lancha da Polícia Federal sem autorização de seus superiores.

Parece que uma parcela da população brasileira não se enxerga como parte do grave problema que vive a sociedade brasileira.

Tanto o japonês da federal quanto o hipster da federal tinham em suas redes sociais postagens bradando contra a corrupção, mas, na verdade, eles mesmo são agentes corruptores.

Todo mundo que anda de carro em São Paulo reclama do trânsito da cidade, mas são estas mesmas pessoas que fazem esse trânsito ser caótico.

Conheço muita gente que não se diz racista, mas que ainda vive em casas/apartamentos que mantêm uma estrutura moderna da casa grande e senzala.

Nós precisamos a aprender a nos enxergar como parte do problema para, só então, conseguirmos ser agente da solução.

Se alguém perguntar para o hipster da federal: “você é corrupto?” tenho certeza que ele vai dizer que não. Da mesma forma que se você perguntar para alguém que tenha uma empregada morando no quartinho ao fundo da área de serviço se ela ajuda a manter a cultura racista no país, muito provavelmente essa pessoa também vai responder que não.

Se você diz que o brasileiro merece o governo que tem, saiba que você também merece (ainda que não tenha votado em tal governo). Nós todos fazemos parte de uma sociedade que construiu toda essa bagunça corruptiva, racista, caótica etc que estamos enfrentando.

Um professor da Unicamp disse: “não existe governo corrupto em uma sociedade honesta”.

Nós precisamos mudar. Urgentemente.


O Café Politik é uma fonte de informação e conteúdo independente. Não recebemos subvenções estatais ou empresariais. Se aprecia o nosso trabalho, não hesite em contribuir para a ampliação e melhoria do nosso Café!

Para pequenas contribuições mensais, visite nossa página no Patreon!

Patreon

Para doações únicas em qualquer valor, utilize o PayPal clicando em Doar!

 

 

 

O cerco ao intocável Renan

Otimismo cauteloso