O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

A política Doriana

Antes de qualquer coisa: tudo o que eu escrevi aqui está baseado em diversas fontes de informação, como os dados disponibilizados no site da própria prefeitura de São Paulo, nos sites da Revista Veja, Folha de São Paulo, Estadão e os mais diversos sites de notícia.

Agora imaginem um excelente comercial de margarina.

Daqueles em que uma família muito feliz toma seu café da manhã em volta de uma mesa redonda em um dia ensolarado.

Assim é a gestão de João Dória em São Paulo. 

Um choque de marketing muito bem feito. Típico do setor privado (o qual eu conheço muito bem). 

Eu acho um fenômeno. Ele e sua equipe de marketing estão de parabéns, de verdade!

No entanto, se botarmos uma lupa em sua gestão, poderemos perceber que o “não prefeito” está praticando o que há de mais bem definido em termos de DEMAGOGIA. Vejamos qual o sentido dessa palavra vinda de um dos dicionários de política mais respeitados do mundo (Dicionário de Política do professor italiano Norberto Bobbio):

“Demagogia não é propriamente uma forma de Governo e não constitui um regime político é, porém, uma praxe política que se apóia na base das massas, secundando e estimulando suas aspirações irracionais e elementares, desviando-a de sua real e consciente participação ativa na vida política”.

Ao se declarar “não político”, João Dória, o então “não prefeito”, porém “servidor do povo” - como ele se declara, está sendo muito eficaz na sua forma demagoga de fazer política. Vestir-se de gari e varrer por 5 minutos das ruas do centro ampliado de São Paulo leva o povo à loucura. Suas visitas relâmpagos a subprefeituras e UBS fazem o povo e os funcionários públicos ficarem com os olhos brilhando.

Tudo isso transmitido ao vivo via internet e com ampla cobertura de jornalistas.

Aristóteles disse em seu livro “A Política” que um bom demagogo deve saber agitar a praça pública fazendo com que a multidão acredite piamente nas ações de seu governante. Eu estou impressionado com a habilidade de João Dória para fazer isso. 

No entanto, ao colocarmos uma lupa em suas ações como prefeito, nós veremos que o que está sendo vendido não corresponde exatamente aos fatos. 

O carro chefe de sua gestão, o programa de zeladoria “cidade limpa”, não é tão eficaz quanto parece. O lixo recolhido pela gestão Dória é 3,5% menor do que o recolhido no mesmo período do ano passado. Em janeiro de 2016, a prefeitura de São Paulo recolheu 8 mil toneladas de lixo. Em janeiro deste ano recolheu-se 7.7 mil toneladas de lixo. Vestir-se de gari, jardineiro e gari tem mais efeito moral do que prático visto que sua gestão cortou 15% da verba de limpeza urbana e, portanto, diminuiu o número de limpadores de rua ao redor da cidade ( http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1860078-simbolo-da-nova-gestao-de-sao-paulo-varricao-de-rua-recua-sob-doria.shtml )

Da mesma maneira, o prefeito prometeu doar seu salário como prefeito e utilizar seu carro próprio para ações da prefeitura, no entanto, a própria prefeitura manteve um carro blindado alugado como reserva para o chefe do executivo ao custo de R$24 MIL REAIS. Utilizar seu carro próprio, mas manter um carro de luxo e blindado como reserva me parece mais ação de marketing do que eficiência na gestão do recurso público (http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/por-dentro-da-metropole/mesmo-com-carro-proprio-doria-gasta-r-24-mil-com-verba-de-automovel/ ).

Por outro lado, o prefeito previu cortar o programa de entrega de leites aos estudantes da rede municipal como sendo uma forma de “racionalizar” o uso do recurso público para educação. Eu vi uma entrevista do prefeito em que ele diz: “Qual a necessidade de se entregar leite para jovens de 13 ou 14 anos?”. Sem o menor senso de compreensão da realidade periférica de quem precisa estudar em escola pública, tomar um copo de leite pela manhã ainda faz muita diferença para jovens pobres (http://veja.abril.com.br/politica/doria-deve-cortar-entrega-de-leite-para-alunos-da-rede-municipal/ )

Em paralelo, João Dória adota ações superficiais como entregar xampus e desodorantes aos moradores de rua da cidade. Mais uma vez sem levar em conta que muito destas pessoas não tem onde tomar banho (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/01/1849375-doria-vai-distribuir-desodorante-sabonete-e-xampu-a-morador-de-rua.shtml )

Analisar a eficácia de um governo requer mais do que assistir as aparições e discursos de auto promoção do político que está no poder.

Analisar a eficácia de um governo requer verificar o que, de fato, está mudando na vida das pessoas. Preferencialmente dos que mais precisam.

Eu não torço para que Dória faça uma má gestão. Pelo contrário. Eu quero muito que ele realmente atenda as necessidades do povo. 

Algumas de suas ações parecem estar sendo bem feitas. Tenho uma grande amiga enfermeira que participou e elogiou muito o mutirão de agendamento de exames clínicos chamado “Corujão”. Que bom! Fico feliz!

O que quero explicitar neste texto é que João Dória ainda é mais um fenômeno de marketing político do que efetivamente um fenômeno de político que está mudando realmente a vida da cidade de São Paulo.

De forma diferente, mas com o mesmo sentido, João Dória tem feito muito bem o que Lula faz. 

João Dória se auto promove como “não político” e “empresário eficiente” e por isso consegue nos vender tão bem a imagem de que sua gestão parece um comercial da Doriana (da gigante UNILEVER).
 

O fator Lula

O mito da apropriação cultural e a intolerância