O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

A Barbárie

Devido ao seu abundante uso pelos movimentos sindicais dos fins da década de 1970, início dos anos 1980 e por ter-se tornado jargão de Lula, a palavra “companheiro” tornou-se algo quase pejorativo na sociedade brasileira.

No entanto, a palavra “companheiro”, em seu sentido epistemológico, significa “aquele que compartilha o pão”.

Em 1965, um companheiro latino-americano, que havia se tornado ministro de Estado, renunciou de todos seus cargos executivos e burocráticos a fim de continuar fiel aos seus ideais de emancipar os povos pobres pelo mundo afora.

Já com família constituída, esse companheiro escreveu uma carta de despedida muito bonita para sua família e em determinado momento ele diz aos filhos e filhas:

“ ... Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo”

Reparem que ele diz: “QUALQUER injustiça cometida contra QUALQUER pessoa em QUALQUER parte do mundo”

Nesta semana, um programa televisivo propôs uma das enquetes mais tolas que já vi, mas que evidencia a irracionalidade que a sociedade brasileira (e mundial) está acometida.

A enquete questionava se, em uma situação de emergência, um médico deveria escolher por salvar um policial com ferimentos leves ou um traficante em estado grave.

A pergunta proposta pela apresentadora presta um desserviço a construção de uma comunidade minimamente civilizada ao passo que fomenta um direcionamento moral (entre o bom e o mau ou entre “mocinho” e o “bandido”) para uma questão que deveria ser tratada de forma mais racionalmente humana possível: a salvaguarda de QUALQUER vida humana.

O médico estudou para salvar vidas e, por isso, deve sempre ajudar quem corre maior risco de perder sua vida. O médico não deve julgar quem atender primeiro.

Quando digo que sou contra a pena de morte, invariavelmente, recebo o seguinte comentário: “ah, queria ver se estuprassem sua filha se você não iria querer matar o estuprador”.

É óbvio que se estuprassem minha filha eu iria querer matar o estuprador com minhas mãos e, provavelmente, com requintes de crueldade.

Mas, caso isso acontecesse, eu estaria completamente tomado pela cegueira passional do ódio, raiva e, ainda, motivado por um sentimento de vingança. O que me parece é que algumas pessoas preferem adotar este pensamento passional como a regra de uma vida que deveria ser pautada pela racionalidade de preservação da vida humana em QUALQUER circunstância.

Ao me distanciar da raiva, ódio, vingança e pensando fria e racionalmente, eu jamais seria a favor de absolutamente nenhuma morte. Ou seja, eu acredito que assassinos e/ou um estupradores devem ser punidos de forma rigorosíssima, mas ninguém merece morrer.

Nós precisamos voltar aos fundamentos do iluminismo e buscar a racionalidade humana como forma de mediação das relações sociais. As questões morais e julgamento de valores são extremamente subjetivos e o que é bom para você, leitor, pode não ser bom para mim. No entanto, isso não tem o menor problema se nos respeitarmos e tivermos nossas vidas preservadas.

Entre duas pessoas feridas, deveria ser um pressuposto básico do nosso pensamento que a pessoa que corre maior risco de perder a vida deveria ser atendida prioritariamente (independente de ser policial, bandido, coxinha ou petralha).

Em QUALQUER situação, esse deveria ser o impulso das pessoas, mas a formadora de opinião de um programa de televisão de grande audiência diz, ao vivo e em rede nacional, que ela, particularmente, escolheria o policial com ferimentos leves para ser atendido prioritariamente.

A julgarmos a vida de uma pessoas (policial) como sendo mais importante do que outra (bandido), nós entraremos em questões cujo julgamento deve permear, no máximo, o foro íntimo de cada pessoa.

No mais, a vida de uma pessoa deve ser sempre preservada em absoluto.

Ou entendemos que somos todxs companheirxs ou caminharemos para a barbárie da humanidade.

O verdadeiro golpe

Qual é o limite aceitável de uma manifestação política?