O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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O contexto civilizatório brasileiro - Ensaio 2

Conforme analisamos em artigo anterior, o Brasil teve uma evolução histórica relativamente pacífica ao longo dos últimos cinco séculos. Ocorreram sim alguns confrontos ocasionais e localizados, mas a preocupação de defesa territorial contra agentes estrangeiros ou mesmo revoluções e guerras civis internas nunca alcançaram uma escala que mobilizasse o nosso povo de forma a criar um verdadeiro sentimento patriótico. Não lutamos sequer por nossa independência.

Vivemos, de forma generalizada, em um verdadeiro cada um por si, sem nenhum tipo de ponderação estratégica que busque deixar um país melhor para nossos filhos e netos. Nossas instituições agem de forma mancomunada, barganhando benefícios e priorizando interesses próprios. Nossa população, em sua maior parte, flutua em um cotidiano massacrante e que não deixa espaço para uma evolução da consciência política e cultural. Aonde erramos? Quais os motivos de um país tão rico como o nosso não ter dado certo?

Inspiro-me no livro Civilization: The West and the Rest, do historiador britânico Niall Ferguson, onde são traçados alguns dos principais motivos do sucesso recente da civilização ocidental quando comparada ao resto do mundo. Importante destacar que o conceito utilizado no livro é político e não geográfico, de modo que a América Latina não faz parte do chamado West ou Ocidente, mas sim, como categorizado por Samuel P. Huntington, de uma célula civilizacional própria denominada civilização latino-americana.

O Ocidente na definição utilizada por ambos os autores é formado pelos Estados Unidos, Canada, Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia.

A citada obra, de forma bastante perspicaz, apresenta algumas chamadas killer apps ou aplicativos matadores, fazendo analogia com as aplicações para smartphones, que possibilitaram e possibilitam a hegemonia das nações ocidentais. As principais killer apps são a democracia, a inovação através da ciência, a competição e o livre mercado. Ao analisarmos o histórico do contexto econômico-social de nosso país, nos parece claro que não implementamos satisfatoriamente estes conceitos essenciais à prosperidade observada no chamado primeiro mundo.

Não há como se argumentar contra a importância da solidez democrática para a formação de sociedades avançadas. Todos os países que compõe a lista das dez nações com melhores índices de desenvolvimento humano são o que podemos chamar de democracias liberais e o são há algum tempo.

O Brasil tem um histórico democrático bastante conturbado. Nenhum dos nossos períodos de democracia plena, incluindo o atual, com dois processos de impeachment em pouco mais de duas décadas, tiveram a estabilidade e a consistência necessárias para produzir um crescimento econômico sustentável. Os principais motivos são, sem dúvidas, o baixo engajamento político e a educação deficiente de nosso povo, que acaba por eleger representantes pouco comprometidos com o progresso do país. Em curto prazo, apenas uma profunda reforma política que inclua, dentre outros avanços, a não obrigatoriedade do voto, pode iniciar uma alteração desse panorama.

Um segundo ponto fundamental para explicar a primazia do Ocidente engloba a inovação científica continuada, algo que só é possível quando se atinge um patamar educacional muito além do que temos hoje. A política educativa no Brasil é deste sempre equivocada. Como já anteriormente analisado, a tática governamental contemporânea envolve o subsídio de cursos superiores, em sua maior parte pouco estratégicos e relevantes, lecionados em instituições privadas de baixa qualidade. O resultado são centenas de milhares de bacharéis sem uma base pedagógica consistente que, preocupados em garantir sua própria subsistência, não podem contribuir devidamente para o avanço científico do país.

Além de estratégias recentes equivocadas, a realidade é que em décadas e centúrias anteriores nunca se observou a priorização da educação como mola desenvolvimentista fundamental. No início do século XX quase 70% da população era analfabeta e, após quatrocentos anos de colonização, não tínhamos sequer uma Universidade em solo brasileiro.

Passando da educação à economia, chegamos ao terceiro e último elemento propiciador da ventura ocidental: o livre mercado caracterizado pela concorrência empresarial. Mais uma vez, para nossa infelicidade, não é possível classificar o atual paradigma econômico brasileiro como sendo verdadeiramente livre. O intervencionismo estatal é algo reiterado, tendo sido elevado à enésima potência durante a gestão de Dilma Rousseff e acarretando uma das maiores crises recessivas de nossa história.

Mas não é só.

A lógica do sistema regulatório e tributário no Brasil parece ser a de inibir e dificultar o empreendedorismo. Os poucos que alcançam algum sucesso empresarial logo ficam dependentes das negociatas com políticos mal-intencionados, algo que a Operação Lava Jato deixa bem claro. É extremamente difícil ser bem-sucedido no Brasil sem que se tenha alguma relação, seja de crédito, proteção ou desvirtuação, com o Estado. O BNDES é a grande prova de que não vivemos em um meio econômico efetivamente livre, mas sim em um ambiente hostil à iniciativa privada, à concorrência e onde os empresários dependem de reservas de mercado, subsídios e elevadas tarifas de importação para sobreviver.

A realidade é que sem profundas reformas nos campos político, econômico e educacional não teremos condições de induzir um crescimento econômico continuado que eleve de forma significativa a qualidade de vida de nosso povo e que catapulte o país para padrões sociais semelhante aos das nações ocidentais.

Em que pese a urgência de discussão de um projeto estratégico de desenvolvimento de médio e longo prazo, nossa classe política preocupa-se apenas em salvar sua própria pele. Já os brasileiros, à exceção de indignações pontuais aqui e acolá, permanecem em sua maior parte inertes, alheios ao fato de que os grãos de areia do tempo estão a se exaurir.

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