O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Eduardo Cunha, o homem cordial.

O conceito “homem cordial brasileiro” foi exposto no livro de Sérgio Buarque de Hollanda em sua obra prima Raízes do Brasil, de 1932.

Segundo Antonio Cândido[1], este livro faz parte de uma trilogia fundamental para se compreender a dinâmica do Brasil (os outros dois livros que formam esta trilogia são: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.).

No entanto, a expressão “cordial” nada tem de positivo no livro de Sério Buarque. O “homem cordial” não trata da afabilidade e simpatia do povo brasileiro.

Quando vai esmiuçar o conceito de “homem cordial”, Sérgio Buarque nos diz:“o Estado não pode ser uma ampliação do círculo familiar”. Ao fazer esta afirmação, ele nos mostra que o grande problema do “homem cordial brasileiro” é que tal cordialidade sai do âmbito privado e abarca toda esfera pública da sociedade e política brasileira. Trata-se de uma herança ibérica em mutação com a miscigenação indígena e negra. Ele é tipicamente brasileiro

Nós somos mestres em resolver as coisas de forma pessoal, no corpo a corpo ou no papo. Não respeitamos as instituições.

Que povo no mundo se dá a liberdade de negociar com um santo a ponto de coloca-lo virado de ponta cabeça ou virado para a parede até ser atendido, como no caso do Santo Antônio, quando alguém quer casar? Este exemplo é hilário (ainda hoje acontece nos rincões brasileiros) e mostra o grau de relação pessoal que criamos até com figuras que em outros povos são altamente respeitadas e até intocadas. Para o povo brasileiro não existe hierarquia. Nós temos tanta intimidade com o santo que o deixamos de castigo até que ele nos atenda com sua graça.

Este exemplo nos ajuda a entender como o “homem cordial brasileiro” é individualista, arredio à hierarquia e à disciplina, desobediente a regras e afeito ao paternalismo, compadrio e personalista.

O “homem cordial” é a personificação do jeitinho brasileiro e só consegue existir nas relações pessoais. Tal jeitinho não funciona no âmbito institucional.

Eduardo Cunha nos deu uma aula do “homem cordial” nas últimas semanas.

Ao dar entrevista coletiva para anunciar sua renúncia, ele chorou ao mencionar os ataques e ameaças que sua família sofre. Dias depois, lá estava ele depondo na CCJ e ameaçando seus colegas deputados com a frase: “hoje sou eu, amanhã pode ser vocês”.

Ele está tratando a salvação de seu mandato da forma mais clara que Sérgio Buarque nos apresentou. Faz corpo a corpo com os deputados e trata a estratégia de voto um a um. Trouxe todo argumento de sua defesa para a relação pessoal.

Eduardo Cunha colocou todos os deputados virados para a parede até que ele alcance a graça desejada.

São Ivo de Kermantin é tido com o Santo da Justiça. Aqui em casa, eu já combinei com ele e sua imagem vai ficar virada para baixo até que o Eduardo Cunha seja preso.

Vamos ver quem tem o santo mais forte ...

 

[1] Antonio Candido tem 97 anos, é sociólogo, literato, professor emérito da USP e UNESP, doutor honoris causa da UNICAMP e um dos principais intelectuais do Brasil.

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