O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Grajaú, Síria e o Natal

A um tempo atrás, eu estive numa favela em um bairro da cidade de São Paulo chamado Grajaú.

Nesta visita, eu tive a oportunidade de entrar na casa de uma moradora e ficar algumas horas conversando com a dona da casa sobre coisas aleatórias da vida. Durante a conversa, eu não pude deixar de notar uma coisa: não havia saneamento básico na casa. As pessoas faziam xixi e cocô e não tinham como dar descarga (algo que, pra mim, até então, era tido como tão natural. Fez xixi/cocô? Dá descarga!).

Não. Dar descarga depois de fazer xixi ou cocô não é algo normal e/ou natural para aquelas pessoas. Todo o xixi e cocô feito por aquelas pessoas eram despejados em esgoto a céu aberto e eles e elas precisavam conviver com aquilo todos os santos dias. O normal/natural para todos os moradores daquela favela era NÃO ter descarga

Em plena cidade de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, a cidade mais rica do Brasil, ainda há pessoas que convivem com xixi e cocô porque não possuem saneamento básico.

Alguns anos após essa minha experiência, eu tive outra experiência mais uma vez envolvendo o mesmo bairro paulistano do Grajaú. 

Eu trabalhava em um grande banco brasileiro e tinha um cargo que precisava viajar toda semana para algum lugar diferente do Brasil.

Minha rotina era, invarialvelmente, esta: segunda-feria pela manhã eu pegava um táxi para o aeroporto e dalí partia para alguma capital do país só retornando para São Paulo no fim da semana.

Durante este tempo, minha família pagava a uma pessoa, que morava no Grajaú, para que ela viesse limpar nossa casa duas vezes por semana (toda segunda-feira e quinta-feira).

Em uma segunda-feira qualquer, pela manhã, enquanto eu me trocava, o interfone tocou para avisar que o táxi já tinha chegado para me levar ao aeroporto. A pessoa que trabalhava em casa me avisou e eu pedi que dissesse ao taxista que eu já estava quase pronto. Quando terminei de me arrumar, eu fui até a cozinha falar um “oi” para esta pessoa e percebi que tinha uma criança de uns 6-7 anos sentada num banquinho da cozinha. Eu cumprimentei o garoto e disse que ele não precisava ficar na cozinha sem fazer nada enquanto a mãe trabalhava. Por isso, eu o levei até a sala, liguei a televisão em algum canal de desenho e disse para o garoto que ficasse lá o tempo que quisesse, caso quisesse. Voltei à cozinha para conversar com a pessoa que trabalhava em casa e mãe do garoto.

- Ta tudo bem? Ele não foi à escola hoje? Algum problema?

- Ta tudo bem sim! É que na quinta-feira passada eu trouxe meu outro filho aqui, e ele chegou em casa contando pros irmãos que tinha andado de elevador aqui no prédio. Aí esse outro disse que também queria andar de elevador e eu o trouxe hoje.

Guardada as devidas proporções, o menino sentado na maca da ambulância da foto acima me lembrou o menino sentado no banquinho da minha cozinha vendo a mãe lavar louça. Eu nunca vou esquecer estas duas experiências. O que para mim era algo banal, para aquelas pessoas era um luxo. 

Fora da minha bolha, ter descarga no banheiro e andar de elevador é um luxo!

Nesta época de fim de ano, as pessoas são tomadas pelo espírito natalino. A fraternidade, o amor pelo próximo e a fé na renovação na figura do Menino Jesus, a solidariedade e a compaixão parecem pairar em nossas casas como se a humanidade vivesse e/ou que buscasse um convívio harmonioso. 

Para mim isso tudo é uma hipocrisia.

O que está acontecendo NESTE MOMENTO em Alepo na Síria, por exemplo (isto para não citar outras desgraças que estão acontecendo neste  exato momento), deveria fazer com que nós repensássemos nossa existência no mundo. Devíamos cogitar seriamente levar a cabo a tese de que a humanidade falhou.

Ao ver as imagens das crianças sendo resgatadas, adultos desesperados e aquela multidão buscando algum tipo de refúgio durante os ataques na Síria, eu me lembrei de como toda comida que engulo desce torto sempre que eu me lembro das experiências que tive com pessoas que moram no Grajaú.

Não há o que comemorar no Natal. 

A desgraça está acontecendo neste momento. Aqui no Grajaú ou lá na Síria.

Eu estarei com minha família na virada do dia 24 para o dia 25. Vou procurar sorrir e tentar não estragar a festa dos outros familiares, mas todo brinde que eu fizer e toda comida que eu comer vão me descer torto neste Natal de 2106.

2017?

A revolução tupiniquim