O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

O quê vem depois do fim?

Me lembro como se fosse ontem.

Há 15 anos meu pai teve câncer e, entre a descoberta do tumor e seu falecimento, ele ficou 10 meses definhando.

No caminho para o velório, estávamos minha mãe, meu irmão, minha irmã e eu no carro e em determinado momento, meu irmão comentou:

- Ainda bem que o pior já passou.

E minha mãe, de pronto, respondeu:

- Meu filho, o pior só está começando.

Ela estava corretíssima. Os anos seguintes foram muito difíceis. O luto, a indignação, a reorganização financeira da família, a reestruturação familiar etc foram extremamente dolorosos.

Ontem, ao término da votação do impeachment de Dilma Roussef, eu estava com a mesma sensação. Não quero, neste momento, discutir o mérito ou não do impedimento da ex presidenta, mas tenho convicção de que o pior só está começando.

Os números mostram que a economia brasileira já pode voltar a crescer no ano que vem, mas gosto sempre de lembrar que crescimento econômico é muito diferente do desenvolvimento de um país (embora a economia tenha papel importantíssimo nesse processo).

O professor de Ciência Política da Universidade de Harvard, Robert Putnam, escreveu um livro que demonstra muito bem essa relação entre desenvolvimento de um país e seu crescimento econômico. O livro “Comunidade e Democracia: experiência da Itália moderna” demonstra que o crescimento econômico sustentável e a longo prazo só acontecem em sociedades maduras política e socialmente. Ninguém quer investir em ambientes que tenham histórico de rupturas (sejam legais ou não), histórico de instabilidade, histórico de heterogeneidade conflituosa. Ou seja, o desenvolvimento político e social é fundamental para um crescimento econômico a longo prazo. Caso contrário, o país só experimenta os chamados voos de galinha.

É o que vejo no Brasil de hoje e é o que vejo em minhas pesquisas sobre a história econômica do Brasil.

Como bem disse um colega de universidade: “O Brasil é um país onde a dialética não produz síntese. Onde a história não consegue ser um processo. Vivemos um eterno dejavu”.

Estamos sempre travando nosso processo de desenvolvimento. Por um motivo ou por outro, nós sempre empacamos.

Em tudo o que eu tenho estudado, para mim fica cada vez mais claro o motivo. Nossa cultura política e democrática é extremamente instável.

No século XIX, o francês Alexis de Tocqueville, em sua monumental obra “A democracia na América”, viajou para os Estados Unidos a fim de compreender como um país com uma sociedade constituída mais recentemente do que a França tinha atingido patamares de democracia muito mais elevados àquela época.

Ele percebeu que o investimento em participações das pessoas na micro esfera da política se refletia na macro esfera da política. Ou seja, a alta participação em associações de bairro, conselhos participativos, cooperativas, conselhos escolares etc formavam nos estadunidenses um ambiente de disputa política muito mais hegemônico e conciliatório do que supunha o modelo francês pós Revolução Francesa. Foi a partir disso que os Estados Unidos tiveram o sucesso no desenvolvimento de sua economia.

O estudo de Tocqueville, no século XIX, corrobora com a tese de Roberto Putnam no século XX e vale também para o século XXI.

Desde a década de 1930, o Brasil teve apenas 6 presidentes eleitos pelo voto popular e 4 deles não terminaram seus mandatos. Soma-se a isso 6 Constituições Federais promulgadas nesse período mais uma grande quantidade de reformas ministeriais e chegamos a resposta de porque o Brasil é sempre o país do futuro que nunca chega.

Não quero expressar minha opinião sobre ser ou não a favor do impeachment da ex presidente.

Quero, apenas, mostrar como o que ocorreu ontem comprova nossa instabilidade histórica e gera uma enorme desconfiança em todos e todas de que no Brasil a qualquer momento algum tipo de ruptura pode acontecer.

Quem vai querer investir num ambiente desse?

Nós podemos até experimentar algum voo de galinha com a economia do governo Temer, mas o país deu mais uma prova de que não somos confiáveis em termos de estabilidade político social.

Vamos precisar começar do zero. Tudo de novo. E recomeçar é sempre muito difícil e doloroso.

Com sentimento de dejavu, eu acho que pior está só começando ... de novo.

Apoio popular? Besteira!

Dilma cavou sua própria cova