O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

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O impasse dos progressistas

A verdade que nos é imposta é que, após o governo Lula ser atingido no conhecido “Mensalão”, onde teve que rediscutir seu pacto de governabilidade, trazendo para o cerne de seu governo aqueles que antes dizia que combateria, não houve mais, por parte do campo progressista, uma reação contundente de retorno as discussões das Políticas Públicas à serem implementadas em governos e nem mesmo uma releitura da ação política pós governos do PT.

Essa estratégia, em números, pode ter sido vitoriosa, se levarmos em consideração os inúmeros avanços promovidos principalmente pelos governos de Lula, e se manteria caso não fosse o episódio de 31 de agosto de 2016, o impeachment da Presidente Dilma Rousseff, sucessora do legado lulista. A articulação para a saída da Presidente, unificando setores da iniciativa privada, partidos políticos e notáveis da sociedade civil inaugurou um novo período da conjuntura política brasileira, somada as investidas da Operação Lava-Jato.

Não vou aqui me ater (apesar de ser muito importante) à Operação chefiada pelo juiz Sérgio Moro por entender que mesmo os excessos praticados por agentes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, especialmente contra Lula e o PT, não desconstrói a sua materialidade, que vem demonstrando a relação promíscua de agentes e servidores públicos, mandatários e líderes dos maiores partidos do Brasil com empresas via financiamento de campanha e obras públicas fraudadas. Mas sim o efeito de toda essa avalanche de fatos sobre a Política, que é o agravamento da relação duvidosa que a sociedade mantém com o exercício da Política. Um dos sintomas desse efeito é o fortalecimento de possíveis presidenciáveis que se sustentam no cenário político pelo discurso da não-política ou por adotarem posições extremistas, no que tange à questão dos direitos humanos e dos avanços sociais conquistados nas últimas décadas.

Nem a direita clássica, a liberal, está conseguindo manter seus líderes (pegos também em delações na Lava-Jato) em condições reais de competição no processo eleitoral de 2018 e, ao que tudo indica, irá recorrer aos seus quadros mais despolitizados e confusos para alçar a Presidência da República. Enquanto do outro lado, o principal partido político, do campo progressista, o PT, está em declínio, pois apesar de manter a liderança quanto ao quesito preferência popular, na prática as eleições de 2016 reduziram suas prefeituras em 60%, segundo o levantamento da Revista Carta Capital.

Pois bem, o que fazer diante desse desafio? Primeiro, precisamos compreender que agenda política prioritária de 2017 não são as eleições de 2018, muito pelo contrário, é a mobilização constante contra as reformas propostas pelo Governo de Michel Temer com o apoio da maioria do Congresso Nacional. Entendida essa questão, precisamos atuar paralelamente se não correremos o risco de nos ver torcendo para um “Macron brasileiro” ou, o que seria bem pior, assistir o fascismo chegar ao poder via processo democrático. Ciro Gomes, em entrevista recente, afirma que uma candidatura de Lula pode levar o país a um racha, em que o debate sobre o Brasil ficaria em segundo plano. Ao que pese os interesses eleitorais de Ciro, essa afirmação tem que ser vista com olhos criteriosos e desprendidos, pois, infelizmente ou felizmente, está correta por diversas questões. Porém, não podemos fechar nossa reflexão de forma tão automática, precisamos ampliar o horizonte para conseguirmos elaborar uma estratégia para além dos interesses eleitorais, mas, essencialmente, os interesses políticos.

Tenho afirmado que os partidos do campo progressista precisam abdicar de suas velhas posições e estratégia, pois a conjuntura dada requer mais ousadia. As diferenças programáticas e táticas expostas até o momento por essas organizações são mínimas diante do desafio, por isso é preciso identificar as convergências e a partir delas construir, junto à população e aos movimentos sociais, um programa único, atualizado, renovado e que dialogue com os anseios da sociedade brasileira. Se adotar as táticas já conhecidas o eleitorado irá rejeitar e vai buscar algo novo, por isso é preciso apresentar uma proposta que mexa com a utopia dos trabalhadores e de suas famílias e não apenas algo que conforte a consciência das direções partidárias.

Mas, para isso, é preciso resolver o impasse que vive o campo progressista, que é da incapacidade de construção de “pontes” e diálogos entre si e da persistente miopia política que faz com que dirigentes e militantes não consigam reconhecer aliados e adversários. Não há outro caminho senão recorrer ao espírito altruísta e fraterno do socialismo, que alimenta diariamente a ação política de cada um desses. Para que possa se pensar as questões brasileiras, dialogar sobre o modelo de políticas públicas que materializarão os encaminhamentos e, dessa maneira, deixarmos de ser reativos às ações neoliberais e passarmos para o campo da proposição, é preciso ser ousado na tática e consistente no programa.

 

Matheus H. de Souza Santos é administrador público, mestrando em Ciências Sociais, professor de Contabilidade e Contabilidade Pública no Departamento de Administração Pública da UNESP de Araraquara

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