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Maria Silvia, Margaret Thatcher e a contradição feminista

Recentemente, no último dia 12, completou-se um ano desde a posse, ainda que provisória, de Michel Temer como Presidente da República. Cercado de desconfianças, o peemedebista assumiu o cargo após o Congresso Nacional afastar a então Presidente Dilma Rousseff, e já em seu primeiro ato provocou enorme polêmica: indicou um ministério formado apenas por homens brancos e heterossexuais, causando a revolta de grupos de defesa de minorias e principalmente de feministas.

Em tese, a decisão de Temer não chega necessariamente a ser um problema, afinal o mais importante na formação de um ministério é capacidade técnica de seus integrantes e não seu sexo ou sua cor. Entretanto, entendo que até mesmo para evitar tal recepção, o Presidente poderia ter tido a sensibilidade de optar por uma composição mais heterogênea em sua equipe de trabalho.

De qualquer forma, em resposta às críticas ou não, dias depois de anunciar seu ministério, Temer nomeou Maria Silvia Bastos Marques para a Presidência do BNDES. A escolha não poderia ter sido mais acertada, e não apenas por Maria Silvia ser mulher, mas principalmente em função de seu currículo invejável que a levou inclusive a ser citada na lista dos maiores executivos do mundo pela renomada revista Time. Na época cheguei inclusive a escrever o artigo Ela vai brilhar elogiando a indicação.

É evidente, e até mesmo Temer sabia disso, que essa nomeação não seria suficiente para conquistar o apoio dos grupos feministas críticos ao seu ministério, mas era de se imaginar ao menos houvesse algum tipo de reconhecimento por sua escolha, afinal a Presidência do BNDES goza de mais prestígio que a maior parte dos Ministérios. Isso entretanto passou longe de acontecer e a razão para isso é simples: Maria Silvia não é ativista da causa feminista e não é de esquerda.

A militância feminista muitas vezes confunde feminismo com ideologia partidária e isso não é de hoje. Em 1979, durante a campanha eleitoral para o Parlamento Inglês, a então líder conservadora Margaret Thatcher sofreu constantes ataques de grupos feministas. Sob o slogan “Nós queremos o direito das mulheres e não mulheres de direita”, esses grupos fizeram ativa campanha contra Thatcher e estiveram na oposição durante os 11 anos que permaneceu como Primeira Ministra, jamais reconhecendo a proeza da “Dama de Ferro” que, independente de seu posicionamento político, desafiou um universo majoritariamente masculino e se tornou possivelmente a primeira mulher a ser chefe de governo na sociedade ocidental.

Não quero aqui defender Thatcher, Maria Silvia ou Michel Temer. Tampouco pretendo entrar em embate com aqueles que não simpatizam com eles ou com qualquer outra figura pública. É absolutamente natural que tenhamos nossas preferências políticas e elas devem ser respeitadas. Porém, é necessário se dissociar a causa feminista em si da ideologia de esquerda, afinal são questões inteiramente distintas.

Por fim, vale lembrar a própria definição de feminismo: é a doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade. Mulheres estas, sejam militantes ou não, sejam de esquerda ou de direita, e por isso mesmo restringir a causa a um grupo específico de mulheres acaba sendo uma forma de discriminação. Um tremendo paradoxo considerando que a luta deveria ser por direitos iguais.

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