O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Willian Waack e a PEC do Aborto

Zoo humano.jpg

A foto acima foi escolhida a dedo.

Trata-se de uma criança, menina e negra que era exposta numa espécie de zoológico humano, na Bélgica, por volta de 1958.

Sim, isso acontecia mais ou menos 60 anos atrás em um país “desenvolvido” (procure mais fotos pelo Google imagens e ficarão aterrorizados com os registros deste zoológico humano).

Mas não precisamos ir tão longe para verificarmos atrocidades explícitas como estas.

Há alguns anos, eu tive a sorte de me relacionar com uma das mulheres mais bonitas e especiais que já conheci.

Ela, por acaso, é uma mulher negra, filha de pai negro e mãe negra. Sem miscigenação.

Sua mãe nasceu mais ou menos na mesma época em que a foto acima foi tirada, em uma cidade pequena próxima a Taubaté, interior de São Paulo. Ela morava na zona rural desta pequena cidade e estudava numa escolinha municipal super precária. Nas salas de aula, haviam mesinhas conjugadas que acomodavam até duas crianças por mesa. Acontece que mesmo nesta pequena cidade do interior paulista, na zona rural – área mais pobre da cidade – havia crianças brancas e negras (a mãe da moça que me relacionei estava entre essas crianças negras).

Por determinação dos professores desta escolinha, as crianças brancas sentavam juntas a outras crianças brancas e as crianças negras sentavam sozinhas nas mesinhas conjugadas. O objetivo de deixar um lugar vago nas mesinhas conjugadas das crianças negras era porquê se alguma criança branca fizesse bagunça, ou desobedecesse aos professores, o castigo desta criança branca era ir sentar ao lado da criança negra. A mãe desta moça linda e especial passou por isso diversas vezes. Quando uma criança branca fazia algo de errado, seu castigo era sentar ao lado de um pretinho ou pretinha.

Quando ela me contou isso, eu fique com um nó na garganta por dias e nunca mais vou me esquecer disto.

No fim do século XIX, Joaquim Nabuco, um importante abolicionista brasileiro disse uma frase que todxs brasileirxs deviam se lembrar diariamente. Ele disse:

“Não basta acabar com a escravidão. É indispensável que se acabe com a obra da escravidão”.

O que Nabuco está a nos dizer?

O abolicionista estava nos alertando, antes do fim da escravatura, que o legado da escravidão estaria em nossas entranhas durante muitos e muitos anos.

O primeiro passo para superarmos este legado maldito que a escravidão deixou para a sociedade brasileira é reconhecer que ele existe.

Após o episódio com o Willian Waack, vários defensores do jornalista saíram em sua defesa negando que Waack fosse racista. Reinaldo Azevedo fez uma defesa fervorosa ao global, dizendo conhecê-lo há muitos anos e afirmou categoricamente: “É claro que nós (Reinaldo e Willian) não somos racistas”.

Esta afirmação negativa já é um problema por si só.

É claro que vocês – e todos nós, como disse Joaquim Nabuco – são (somos) racistas.

A grande questão é como você lida com esta informação. Por diversas vezes, eu me pego escorregando aqui ou acolá em algum comentário ou atitude, mas fico extremamente constrangido ao perceber o deslize. Quero sumir e nunca mais aparecer.

O Willian Waack comete o deslize e gargalha. E gargalhando reforça o comentário com o entrevistado.

Da mesma forma que precisamos acabar com a obra da escravidão, urge que acabemos com a desigualdade nas relações sociais entre homens e mulheres.

Um barbudo inglês disse, também no século XIX, que a humanidade só conseguiria se emancipar da exploração do homem pelo homem, quando as mulheres tivessem se emancipado das relações machistas e patriarcais que permeiam a sociedade “moderna”.

Se o homem engravidasse, o aborto já estaria legalizado a muito tempo.

A proposta que acaba com a possibilidade de aborto em todas as circunstâncias, inclusive em caso de estupro, é uma afronta ao direito que a mulher tem ao seu próprio corpo.

A relação da mulher é tão subjugada na sociedade que a reduzimos a uma incubadora de fetos sem a menor autonomia sobre seu corpo.

É óbvio que ninguém quer incentivar o aborto. Se você perguntar para qualquer mulher que já precisou passar por isto, e eu conheço mulheres muito próximas a mim que precisaram passar por isto, você perceberá a violência e o estrago emocional que este procedimento causa nas mulheres.

Legalizar o aborto é diferente de incentivar o aborto.

Legalizar o aborto serve, inclusive, para que se crie campanhas de conscientização para os problemas futuros que esta prática pode causar na vida das mulheres e, assim, com todo um aparato de psicólogos, médicos, assistentes sociais e todo suporte necessário, conseguir, até, reverter casos de mulheres que queiram abortar.

O problema é que 18 homens, brancos, com uma renda consideravelmente alta, estão, mais uma vez, subjugando o papel decisório da mulher em nossa sociedade e querem decidir por elas.

Eu aposto que se você for perguntar para um destes 18 homens que estão a decidir este assunto tão importante, e que compete unicamente as mulheres, se eles se consideram machistas, a resposta será um altivo NÃO!

Eles não são machistas, assim como Willian Waack não é racista.

Eu sou homem, branco, hetero e de classe média. Sei que represento tudo o que há de mais preconceituoso na sociedade brasileira.

Tomo um cuidado constante e diário para mitigar todos estes preconceitos que me permeiam.

Falar "é coisa de preto" é racismo sim. Falar "é coisa de preto" e depois gargalhar é um racismo sádico. Da mesma forma que 18 homens decidirem sobre o aborto mostra o caráter machista e patriarcal da nossa sociedade.

O primeiro passo para se curar de uma doença é se reconhecer doente.

Eu me reconheço doente. E você?

O oportunismo por trás do julgamento de William Waack

Uma questão de caráter