O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Brasil, qual o teu segredo?

No mesmo ano de promulgação da nossa atual Constituição Federal, em 1988, o cantor e compositor Cazuza escreveu uma música que dizia assim:

“Brasil,
Mostra a tua cara!
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil,
Qual o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim!”

A minha interpretação deste trecho da música é que se o Brasil mostrar sua cara, e o povo brasileiro identificar “quem paga” para que o país fique assim, muitos segredos seriam revelados.

O cientista político italiano Norberto Bobbio escreveu um livro interessantíssimo chamado “Democracia e Segredo” no qual ele diz que uma democracia só poderia existir quando os dirigentes governassem PARA o público e EM público.

O que Bobbio quer dizer?

O italiano nos mostra que para um governo ser verdadeiramente republicano e democrático, ele precisa estar atento e direcionar todas as suas ações para todo o povo e, mais do que isso, que o povo saiba quais são e como são negociadas estas ações.

O Brasil falhou nas duas premissas da democracia republicana prevista por Norberto Bobbio.

No entanto, para quem estuda o Brasil e suas relações sociais, políticas e econômicas, isso não é novidade. Alguns autores clássicos já denunciavam a quase 100 anos atrás.

No livro “Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, escrito em 1936, o autor já denunciava que um dos maiores problemas brasileiros era a herança ibérica legada ao Brasil em que as relações sociais, políticas e econômicas se mostram em permanente confusão entre o que é público e privado. Uma situação onde as relações pessoais se mostram mais afiadas do que as relações institucionais e, portanto, há uma total falta de respeito pela hierarquia e uma exaltação do prestígio pessoal. Ou seja, vale tudo para se obter algum privilégio.

Já no livro “Os Donos do Poder - A Formação do Patronato Político Brasileiro”, de Raimundo Faoro, escrito em 1958, o autor nos brinda com uma digressão histórica desde antes do “descobrimento” do Brasil para nos mostrar quem são as elites dirigentes no país. O autor nos mostra que o um mesmo grupo de pessoas - com finalidades e objetivos semelhantes - se revezaram no poder durante toda a história brasileira.

Os dois livros (assim como outros) desvendam o segredo brasileiro. Entretanto, apesar de serem muito bem fundamentados, os livros não possuem caráter de denúncia, pois discutem o problema de formação da nação brasileira e não de um fato isolado (como a Lava-Jato, por ex.).

No entanto, dado os atuais acontecimentos, fica mais do que claro a assertividade dos argumentos apontados por estes autores.

A confusão que a elite dirigente do país (políticos e empresários) faz entre o que é público e privado transformou o Brasil numa bagunça quase irremediável.

Esta confusão entre público e privado (que mantinham privilégios de uma mesma elite dirigente) só foi possível ao longo de séculos porque foi mantida em segredo por todo este tempo.

Agora que a forma de se dirigir o país está deixando de ser segredo e sendo exposto EM público (conforme disse Bobbio), o que fazer? Agora que está claro que misturar interesses públicos e privados dá merda, o que fazer?

A minha avaliação é que precisamos refundar a república brasileira com bases em novas instituições que não permitam a confusão denunciada por Sergio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro (dentre outros). Precisamos limpar o terreno e começar a deixar muito claro quais são os interesses públicos e quais são interesses privados.

Está límpido como água que misturar interesses públicos e privados foi muito lucrativo para políticos e empresários brasileiros.

No entanto, ao observarmos o atual movimento político brasileiro, o que está se contornando para o futuro é justamente o político que se diz “não político”, gestor e que negocia com o setor privado para atender interesses públicos.

Ou seja, estamos perpetuando a confusão público/privado, conforme Sergio Buarque de Holanda, e apenas mudando a elite dirigente que, todavia, mantém as mesmas finalidades e objetivos históricos, conforme Raimundo Faoro.

Político deve cuidar da coisa pública da forma mais eficiente possível. Gestor cuida de empresa.

A ascensão do “político gestor” apenas reinventa a lógica da confusão apresentada neste texto.

Pela primeira vez consegue-se provar e condenar o segredo denunciado pelos autores clássicos e mesmo assim o que surge como “novo” é a perpetuação de condutas antigas.

O Brasil realmente não é para amadores.

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