O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

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A lógica ideológica por trás da idéia de "golpe"

Após quase 24 anos, o Brasil volta a estar diante de um processo de impeachment de um presidente da República. Dilma Rousseff pode nesse domingo se juntar a Fernando Collor de Mello e ser a segunda Presidente brasileira afastada por vias legais desde a redemocratização na década de 1980. Considerando que Dilma é apenas a quarta presidente eleita desde então, caso o impeachment se confirme, poderemos dizer que 50% dos Presidentes eleitos democraticamente desde 1989 terão sido afastados antes de concluir seu mandato. 

Diferente do atual processo que corre no Congresso Nacional contra a Presidente Dilma, o impeachment de Fernando Collor de Melo foi pouco questionado quanto a sua legitimidade. Havia na época um consenso nos mais diversos setores da sociedade que Collor deveria ser afastado. Na verdade, não se viu ninguém, além do próprio Presidente, chamando o impeachment de golpe. Mas se o nível de aprovação de Dilma é semelhante ao de Collor em 1992, o que explica isso? O que distingue eles? A resposta é mais ideológica do que conjuntural. Duvida disso? Então encontre um amigo que não costume votar no PT, PSOL, PC do B e afins, que seja contra o impeachment. Dificilmente encontrará.

Poderíamos ficar aqui horas debatendo as pedaladas fiscais, fazendo comparações sobre o "Esquema PC" e o "Petrolão", mas não chegaríamos a raiz do problema. Fernando Collor teve uma carreira meteórica, em menos de 10 anos foi de prefeito de Maceió a Presidente da República. Mas Collor nunca representou nada, nunca foi símbolo de ideologia alguma. Ele se tornou Presidente por uma conjuntura específica de fatos, algo do tipo estar na hora certa e no lugar certo, embora fosse a pessoa errada. Da mesma forma que ele foi colocado no Planalto, ele foi retirado de lá, sem maiores traumas. Dilma, por outro lado representa a ideologia de esquerda que desde a década de 1960 sonhava em chegar ao poder. Foi um longo caminho, desde a luta contra o Regime Militar, passando pela fundação do Partido dos Trabalhadores até chegar a eleição de Lula em 2002. Durante 4 décadas se construiu um nível de engajamento e uma capacidade de mobilização de militância que grupos de direita jamais experimentaram no país. A queda de Dilma poderia representar uma derrota cabal para esse ideário socialista, mas tais grupos não estão dispostos a permitir.

Embora o governo do PT receba diversas críticas dentro da própria esquerda desde o Governo Lula, por supostamente fazer muitas concessões ao "capital internacional", o afastamento de Dilma é visto como um mal ainda maior. Um governo de Michel Temer certamente será muito mais simpático aos interesses do mercado, com uma política econômica ortodoxa, algo que é inaceitável dentro da lógica marxista que ainda orienta esses grupos de esquerda. O problema em si não é a queda de Dilma e sim quem irá assumir, caso o impeachment se concretize. Certamente se o vice da Presidente fosse Lindbergh Farias ou Marcelo Freixo, a mobilização seria bastante diferente.

Dessa forma, a afirmação de que há um golpe em curso nada mais é que uma tentativa de dar uma roupagem jurídica a uma argumentação que é puramente ideológica. Por mais que tentem fugir da realidade, o debate sobre o impeachment é completamente legítimo, dado que a Presidente é acusada de ter cometido crime de responsabilidade ao realizar as tais pedaladas fiscais, além de ter tido sua campanha eleitoral paga com dinheiro proveniente de propina. Diante de tais fatos, é um enorme contrassenso falarmos em golpe, muito embora seja legítimo que grupos se posicionem favoravelmente a permanência da Presidente. Assim funciona e continuará funcionando a democracia brasileira.

 

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