O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

Um docinho pra você e outro docinho pra mim

Em 05 de outubro de 1988, o deputado Ulysses Guimarães, como presidente da Assembléia Constituinte, promulgou a Constituição Federal que nos rege até hoje.

Em seu discurso de promulgação, Dr. Ulysses - como era conhecido - disse:

“A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune toma nas mãos de demagogos que a pretexto de salvá-las a tiranizam.

Não roubar, não deixar roubar e por na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública.”

Já ouço pessoas me chamando de pessimista e chato, mas o papel de um cientista político é buscar afastar-se do discurso majoritário e compreender as entrelinhas dos acontecimentos políticos de uma sociedade.

A saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados não me enche os olhos. Obviamente que ele é uma figura nefasta da política brasileira e, também, é óbvio que é melhor sem ele do que com ele na arena política.

No entanto, o que me move é compreender não o que está na realidade aparente, mas sim na essência dos acontecimentos e, neste sentido, a professora de Ciência Política da Universidade de Yale (EUA), Susan Rose-Ackerman, nos diz algo muito interessante sobre a corrupção brasileira:

"Se as estratégias enfatizarem apenas o lado da aplicação da lei, elas não oferecerão solução no longo prazo. Uma vez que um grupo de atores corruptos for punido, um novo grupo logo aparecerá".

Lembremos que em 1992, após o impeachment do então presidente (e atual senador) Fernando Collor, o país acreditava devotadamente que a corrupção estava morta no país. Me lembro de jornais dizendo que o impeachment de um presidente amedrontaria os políticos de tal forma que a prática corruptiva estava com os dias contados. Com a saída de Collor, a sociedade brasileira estava docilizada e acalmada.

Já em 1995, menos de 3 anos após o impeachment do Collor, veio à tona o escândalo do SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) em que lobistas pagaram propina a alguns políticos para que aprovassem um contrato - sem licitação - com uma empresa estadunidense por 1,4 Bilhões de dólares (quase 20 Bilhões de dólares em valores atualizados).

Ou seja, não adiantou tirar Fernando Collor da presidência porque o modo de se fazer política no Brasil não foi alterado.

O mesmo posso dizer de agora. Uma parte da sociedade ganhou um docinho quando saiu o impeachment da Dilma e se acalmou. Ontem, outra parte da sociedade ganhou um docinho, com a saída de Eduardo Cunha, e tende a arrefecer seus ânimos também.

Grande parte da população brasileira sente que justiça está sendo feita (e está mesmo), mas ... e aí?

Quanto tempo vai demorar a surgir novos casos de corrupção? Ou vamos cometer o mesmo erro ingênuo de achar que “agora moralizamos a política” - como na época do Collor?

Retomemos parte do discurso de Ulysses Guimarães promulgando nossa Constituição:

“Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.”

Sem alterarmos a forma de fazer política no Brasil, a Nação não vai mudar. Mudam-se as mãos dos políticos, mas mantém-se a forma de fazer política. Esse é o nosso grande problema. Como disse a Profa. de Yale: “sai um grupo corrupto e entra outro”.

Precisamos, urgentemente, mudar a forma com que as relações políticas estão postas na arena de disputa pelo poder. E, para isso, precisamos de um amplo e profundo debate sobre uma radical e efetiva reforma política, bem como a necessidade de um plano de desenvolvimento da cultura política-democrática a longo prazo para a sociedade brasileira.

O Brasil é um país personalista. Damos ênfases a indivíduos em detrimento às instituições. Elegemos heróis (Getúio, JK, Lula, Joaquim Barbosa, Sergio Moro etc) e elegemos vilões (João Goulart, Lula, Dilma etc) quando na verdade deveríamos valorizar as instituições. É inócuo ir às ruas para apoiar ou tirar algum governante quando, na verdade, nós deveríamos ir às ruas para forçar uma mudança na forma de se governar (é bom lembrar que 3 dias após o impeachment da Dilma, as tais “pedaladas fiscais” foram votadas no Congresso e agora, formalmente, não são mais crimes). É disto que eu to falando.

Caso contrário, vamos continuar ganhando docinhos aqui e acolá para nos docilizarmos e continuarmos mansos neste círculo vicioso de corrupção que teima em nos seguir.

Chega de doces!

A saída de Dilma e de Eduardo Cunha não adocicou minha boca.

*Vale a pena ler o discurso inteiro de Ulysses Guimarães na promulgação da nossa Constituição. Segue abaixo o link:

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/CAMARA-E-HISTORIA/339277-INTEGRA-DO-DISCURSO-PRESIDENTE-DA-ASSEMBLEIA-NACIONAL-CONSTITUINTE,--DR.-ULYSSES-GUIMARAES-(10-23).html

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