O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

O real interesse por trás dos ataques de Donald Trump à Alemanha

Trump-und-Merkel-beim-Nato-Gipfel-2017.jpg

Em sua recente passagem pela Europa para a cúpula dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN e para visita de Estado ao Reino Unido, Donald Trump voltou a criticar fortemente países europeus, em especial a Alemanha, já que, segundo o presidente norte-americano, esses países não estariam cumprindo suas obrigações na área de defesa.

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que a Europa tem de fato que ampliar seus gastos na área. Por se tratar da maior área de livre comércio e circulações de pessoas do mundo, além de ser um continente pacífico e com alto índice de desenvolvimento humano, deveria ser interesse prioritário dos europeus a total independência no setor militar.

Não obstante, como de costume, os números e argumentos utilizados por Trump não se sustentam após uma análise mais detida. 

O estopim da polêmica envolvendo a cúpula da OTAN envolveu  a construção do gasoduto Nord Stream 2, que irá possibilitar o escoamento de gás da Rússia para a Alemanha pelo Mar Báltico sem a necessidade de que sejam pagos royalties para países como a Ucrânia. Segundo Trump, não faria sentido que os EUA bancassem a defesa da Alemanha da Rússia, enquanto a Alemanha amplia sua dependência energética do país de Vladimir Putin.

Em primeiro lugar, destaca-se que Trump mentiu em sua coletiva final ao informar que os EUA são responsáveis 90% das despesas da OTAN.  De acordo com os números oficiais da organização, os Estados Unidos entram com 22% do total de gastos administrativos da aliança, enquanto a Alemanha vem em segundo lugar com 14%.

Da mesma forma, o presidente americano falta com a verdade ao informar que os países europeus não estariam cumprindo com suas obrigações de investir ao menos 2% de seu orçamento na área militar. Ora, em 2014 as nações aliadas estabeleceram uma META de atingir o patamar de 2% do PIB no prazo de uma década, ou seja, até 2024! Metas não são obrigações peremptórias, ainda mais quando não preveem sanções pelo descumprimento.

Não obstante, a maior parte dos países, incluindo a Alemanha, estão ampliando, ano após ano, seus gastos na área e estão a caminho de alcançar o patamar de 2% no prazo estipulado. Conforme consta do gráfico abaixo, os gastos em defesa do país germânico cresceram substancialmente desde 2014 e estão em notável trajetória de ascendência.

germany-military-expenditure.png

Saliente-se, ainda, que a UE tem, de longe, o segundo maior orçamento militar do mundo. Apenas os gastos em defesa de França e Alemanha representam mais do que o DOBRO do orçamento russo, algo que torna pouco crível a afirmação de Trump de que a Europa ficaria " totalmente indefesa" sem o apoio dos Estados Unidos. Fato é que Trump age como verdadeiro mafioso-miliciano e utiliza as bases americanas instaladas na Europa, algo que beneficia seu país diretamente com influência, inteligência e ampliação de seu poderio bélico, como fator de pressão política sobre um continente de países pacíficos e aliados.

Abobrinhas de Trump à parte, com relação ao gasoduto Nord Stream 2, a análise cautelosa das manifestações de altos representantes do governo americano antes e durante a cúpula da OTAN deixa claro que os Estados Unidos buscam apenas a promoção de seus interesses estratégicos de longo prazo, especialmente a intenção de vender o seu gás liquefeito para a Alemanha e outros países europeus.

Em outras palavras, o que a América realmente quer não é a independência energética ou militar da Alemanha, algo que irá acontecer, mais cedo ou mais tarde, dado ao gigantesco investimento do país em fontes renováveis de energia e o crescimento constante das despesas em defesa, mas sim que Berlin substitua o gás barato da vizinha Rússia, por uma solução que demandaria o transporte de LNG/GNL americano através do Oceano Atlântico. Uma operação infinitamente mais custosa e danosa ao meio-ambiente do que a utilização do gasoduto.

TUDO, absolutamente TUDO por trás das relações internacionais de qualquer país, e dos Estados Unidos em especial, visam fortalecer seus interesses, notadamente seus interesses COMERCIAIS. O que os americanos desejam, na realidade, é que a Alemanha deixe de depender da Rússia para suas compras energéticas e passe a depender dos Estados Unidos.

E por qual motivo seria isto uma má ideia? Afinal, EUA e Alemanha são aliados, não é mesmo?

Muito simples: da  mesma maneira que a Alemanha depende do gás russo, os russos dependem do dinheiro alemão. Em termos simples e ríspidos: a Rússia nada mais é do que um posto de gasolina com armas nucleares. Portanto, entre ser dependente dos EUA ou da Rússia, parece ser clarividente que é melhor depender de alguém que também depende de você! Por este motivo, dificilmente Berlim irá desistir da construção do Nord Stream 2.

 

Crime e Capitalismo: 100 milhões contra 5