O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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O tempo

Qual a causa do descolamento entre a sociedade e a política? Por que as pessoas, de modo geral, estão tão desacreditadas na política?

Segundo diversos cientistas, o tempo é uma das principais causas da atual crise entre sociedade civil e sociedade política.

Para que algum tipo de representação tenha alto grau de credibilidade é necessário que os representados sintam-se atendidos em suas demandas pelos seus representantes.

Explico:

Imaginemos um bairro em que começa a haver um surto de roubos residenciais. Dito isto, agora imaginemos duas situações:

1) a polícia é chamada em todos os casos de roubo, mas demora a atender os chamados e, quando atende, não alcança solução.

2) começa a rondar pelo bairro um boato de que há um grupo de moradores que se uniram para enfrentar estes roubos e que estão conseguindo solucionar todos os casos verificados com enorme rapidez - inclusive com a devolução dos bens roubados.

A conseqüência primeira no exemplo acima é de que a instituição policial começaria a sofrer de um alto grau de descredibilidade e, pouco a pouco, deixaria de ser acionada pela população daquele bairro que passaria a acionar o grupo de moradores organizados para solucionar os futuros casos de roubo.

Ou seja, o grau de credibilidade de uma instituição de representação está intimamente ligado ao sucesso nas respostas dadas e também ao tempo que se demora em dar estas respostas.

Acontece que num governo democrático o tempo anda em uma velocidade diferente.

Na época medieval, nos governos absolutistas, os governantes reprimiam qualquer tipo de demandas da população e as principais obrigações dos reis eram as de garantir a propriedade privada e a vida de seus súditos.

Com a queda dos governos absolutistas e o triunfo dos regimes democráticos pelo mundo, a proliferação de demandas vindas da sociedade (que antes apenas demandava pela garantia da propriedade e da vida) aumentou de forma exponencial.

Não basta mais garantir a propriedade privada e a vida. Tem que garantir a propriedade privada, a vida, dar escola, saúde, habitação, transporte, lazer, aposentadoria, promover a cultura, garantir igualdade racial, de gênero etc etc etc.

Para garantir tudo isto (e eu acho que tem que garantir mesmo) o Estado precisou se organizar estruturalmente e financeiramente criando diversas esferas de poder público especializado em cada uma das áreas que a população achou que deveria ser atendida.

A todas estas esferas criadas para dar vazão as demandas da sociedade dá-se o nome de “burocracia estatal” e é aí que reside o cerne da crise sociedade VS. política.

Numa democracia, tudo precisa ser aprovado pela maioria. Portanto, todas as decisões precisam ser debatidas, votadas, aprovadas e colocadas em disputas com outros assuntos para que, só então, algum tema seja colocado em prática atendendo a alguma demanda da sociedade.

Isto leva tempo.

E a sociedade cada vez menos tem paciência para esperar as deliberações de uma política democrática.

Em suma, existem duas situações:

1) em uma autocracia ou ditadura, o governante reprime as demandas da sociedade e, por não precisar deliberar sobre as respostas a serem dadas, pode agilizar a solução de casos pontuais.

2)  em uma democracia, o governante dá total liberdade para que a sociedade demande e, por precisar deliberar sobre todos os assuntos, acaba demorando mais para dar respostas a sociedade.

Qualquer um que se envolva em algum tipo de deliberação sobre demandas coletivas percebe o quão difícil é se chegar a um consenso e conseguir atender a essa ou àquela situação.

A vida na política democrática tem um tempo diferente do que na vida do dia a dia.

Compreender esta relação é um elemento fundamental para se entender a atual crise de representatividade e pensar em soluções para que a política volte a ter credibilidade.

Nós podemos, e devemos, buscar maior agilidade nas burocracias do Estado, mas organizar a sociedade de modo a atender a maioria das demandas da população ainda passa por fazer política democrática da forma que conhecemos, isto é, debatendo, discutindo, deliberando, priorizando, escolhendo, uns tendo suas demandas atendidas de imediato, outros precisando esperar um pouco mais etc etc etc.

Se não quisermos que os rumos da nossa sociedade sejam definidos por decisões monocráticas, nós precisamos compreender qual o ritmo do tempo que os processos democráticos nos impõe.

Política e Religião não se discute! Será mesmo?

A burguesia tupiniquim