O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

A revolução tupiniquim

Em 1966, dois anos após o Golpe Militar de 1964, Caio Prado Jr. escreveu uma de suas principais obras: “A Revolução Brasileira”.

Neste livro, o autor explica o quê para mim é a melhor definição de revolução. Ele diz:

“No sentido em que é rotineiramente usado, “revolução” quer dizer o emprego da força e da violência para a derrubada de governo e tomada do poder por algum grupo, categoria social ou outra força qualquer na oposição. “Revolução” tem aí o sentido que mais apropriadamente caberia ao termo “insurreição”.

O que Caio Prado Jr. está nos dizendo é que nem todo processo revolucionário se dá nos moldes que ficou consagrado com a Revolução Francesa, ou seja, um movimento violento em que levou a realeza à guilhotina, queimou-se a Bastilha e toda organização social foi violentamente modificado.

A primavera árabe está aí para nos provar que Caio Prado Jr. estava certo. Toda aquela “revolução” que houve no Egito, Líbia e demais países árabes, não passou de insurreições que em nada revolucionaram a ordem política, econômica e social daqueles países. Prenderam o ditador egípcio Hosni Mubarak, mataram o ditador líbio Muammar Gaddafi e o que se viu foram outras formas de governos opressores tomando conta do poder e nenhuma mudança estrutural, de fato, aconteceu.

Neste sentido, Caio Prado Jr. continua nos ensinando:

““Revolução” em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade”.

Não há cenário para uma insurreição no país, mas o Brasil precisa de uma revolução nos moldes caiopradiano.

Quando começaram os movimentos “Fora Dilma” logo após sua reeleição em 2014, eu vi muitos dos movimentos que encabeçaram aquelas manifestações com cartazes, camisetas, faixas etc dizendo que a solução para o país era limpar o Brasil do PT, como se o PT fosse O problema a ser resolvido na política brasileira.

Movimentos como MBL, Vem para a Rua, Revoltados Online, infelizmente, não entendem absolutamente nada da conjuntura política e social do país.

O PT não era O problema, mas sim PARTE do problema. E isso está ficando cada vez mais claro com os acontecimentos dos últimos tempos. Após tirarem a Dilma do poder, as eleições municipais praticamente limaram o PT do país, e eu vos pergunto: O quê, de fato, mudou? Ou, ainda, há perspectiva de mudança estrutural, mesmo se o PT nunca mais voltar a governar o país?

Hoje pela manhã, dia 13/12/2016, a PEC dos gastos públicos foi aprovada pelo Senado Federal e seguirá para promulgação.

Eu tenho a mais absoluta certeza de que as contas do governo estão com problemas e que algum tipo de ajuste fiscal é necessário.

No entanto, essa PEC – assim como a saída da Dilma – resolve uma PARTE do problema em seu aspecto conjuntural e não vai à raiz do problema em seu aspecto estrutural.

As contas deficitárias do governo federal não são O problema do país, mas sim PARTE do problema do país.

Os defensores da PEC dizem que os gastos com educação e saúde não estão congelados, pois permite seu reajuste de acordo com a inflação (ou aumento no investimento caso alguma outra área tenha deflação). No entanto, e por exemplo, todo o gasto com saúde no mundo está balizada em dólar e seus custos são, invariavelmente, reajustados com índices muito maiores do que a inflação. Isto quer dizer, que, SIM, os gastos com saúde terão uma diminuição real de seus investimentos ao longo dos anos.

Da mesma forma a educação, que deveria acompanhar o ritmo de desenvolvimento tecnológico, que também tem seu custo acima da inflação, sofrerá um déficit de investimento nos próximos anos.

É muito importante nos perguntarmos: por que esta solução e não outra? Será que esta é, de fato, a única solução possível? A quem esta PEC realmente interessa?

A realidade está nos mostrando que a situação brasileira não vai mudar com saída da Dilma, do Temer, do fim do PT, da aprovação da PEC e nem nenhuma dessas baboseiras.

Estas são soluções simplistas que nos dão alento sempre no curto prazo (assim como as comemorações dos povos egípcios e líbios quando derrubaram seus ditadores).

A situação do Brasil só mudará com um processo de alteração, nos moldes caiopradiano, em que TODAS AS PARTES da estrutura social, político e econômico do país mude em um curto espaço de tempo, mas com efeitos a longo prazo.

Toda ebulição que temos vividos nos últimos tempos parece ser um movimento que não tem volta. Nós temos uma chance de tentar mudar toda essa nefasta relação político social que herdamos desde a nossa colonização.

Pode ser um lapso histórico que não aconteça nunca mais. Todas as nossas instituições estão derretendo e agora, talvez, seja o momento de uma refundação da república brasileira. Uma refundação revolucionária que mude, realmente, toda nossa organização social.

Vai ser difícil? Com certeza! Talvez surja algo pior do que temos agora? Não sei!

O que nos aponta o horizonte é algo, a meu ver, muito ruim. Parece que caminhamos para mais concentração de poder (Renan Calheiros X STF), surgimento de aventureiros outsiders, menos democratização dos direitos e privatização dos ganhos e socialização dos prejuízos.

Porém, são nestes momentos de exaltação das contradições que reviravoltas costumam acontecer, e de um horizonte fúnebre pode alvorecer um tempo cintilante.  

Se estas mudanças forem estruturais, como definiu Caio Prado Jr., eu pagaria pra ver. 

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