O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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Fidel, o totalitário

Após a morte de Fidel Castro, Cuba decretou uma semana de luto. Em países democráticos, isso normalmente significa um comunicado, bandeiras a meio-mastro e algum protocolo simbólico. Em Cuba, toda a programação de TV e rádio foi alterada, proibindo diversas músicas mais alegres, filmes e telenovelas. Bebida alcoólica não pode ser consumida em público, todos shows musicais foram cancelados e não se pode escutar música alta.

As ditaduras são caracterizadas pela falta de alternância democrática do poder, cerceamento de liberdades e instituições dependentes da vontade do ditador. O totalitarismo dá um passo a mais entrando no cotidiano do cidadão e regulando a vida privada das pessoas. Não basta apenas censurar reportagens indesejadas, como fez a ditadura no Brasil. Toda a mídia é propriedade estatal e reproduz exclusivamente a ideologia do governo. Em um país onde os vizinhos são recrutados para vigiar uns aos outros, um jornal de oposição com uma tiragem de 200 mil exemplares, como O Pasquim, nunca chegaria a ser impresso. O exílio político não é uma opção e o crime de deserção é punido com fuzilamento. O governo não se contenta em perseguir guerrilheiros e persegue a população. As universidades e as redações de jornais não são refúgios dos opositores do regime. Só há espaço para um único partido e eleições para vereadores, deputados, senadores, prefeitos e governadores são situações impensáveis.

Calcula-se que o governo cubano matou entre dez e cem mil pessoas, o que significa algo entre mil e dez mil assassinatos para cada milhão de habitantes.  A ditadura no Brasil cometeu menos de três assassinatos para cada milhão de habitantes. Há uma diferença de ordem de grandeza entre esses números. Em relação a direitos civis, não há nada para se elogiar sobre a ditadura brasileira, mas o que podemos elogiar sobre uma ditadura que matou mil vezes mais?

Alguns insistem em enaltecer algumas benfeitorias de Fidel Castro toda vez que comentam sobre Cuba. Hitler acabou com a hiperinflação e abaixou o desemprego para quase zero, enquanto Stalin transformou um país agrícola em uma potência industrial. Mas esses feitos são insignificantes perto do inferno em que esses tiranos transformaram a vida dos seus governados. O tratamento dado a Fidel não deve ser diferente. Quando a Argentina manipulou dados de inflação recentemente, institutos independentes denunciaram a farsa. Em Cuba não há órgãos independentes para denunciar nada. Acreditar nos indicadores socioeconômicos cubanos é um ato de fé.

Mesmo com essas estatísticas possivelmente infladas, o desempenho de Cuba é sofrível. O Social Progress Index [1] utiliza uma lista extensa de indicadores, o que dificulta a manipulação desse índice por parte dos governos. A ilha de Fidel aparece atrás de quase todos os países latinos americanos, com exceção do Haiti, país devastado por furacões e terremotos nos últimos anos. É difícil acreditar que um serviço tão caro como assistência médica seja oferecido com boa qualidade em um país pobre. Qual o valor que devemos dar a alfabetização em um país sem livre acesso à internet?

Outros insistem em culpar o embargo pela falência econômica de Cuba. Se dividirmos o comércio exterior de Cuba pelo seu PIB encontramos a proporção de 45 por cento. No Brasil, essa razão é de 25 por cento. [2] Difícil de acreditar que as mesmas pessoas que culpam o embargo pela miséria em Cuba pedem mais protecionismo e menos abertura comercial para que o Brasil se desenvolva.

A ilha de Fidel Castro talvez ainda seja uma das experiências menos desastrosas do socialismo. Os cubanos foram sustentados por décadas pela União Soviética que comprava o açúcar cubano a onze vezes o valor do mercado internacional. Ainda hoje milhões de dólares são enviados ao país pelos exilados cubanos que moram nos EUA. Os trabalhadores de Cuba só servem a um único patrão, o estado. Não podem sair do país ou pedir demissão e quase todo o produto de seu labor é expropriado pelo governo. A escravidão é caracterizada por pessoas que não tem autonomia sobre sua mão de obra e os frutos do seu trabalho, o que pode ser exemplificado com a situação dos cubanos no programa Mais Médicos. Ainda que não sejam chicoteados, a vigilância e a falta de liberdade deixam o povo em uma situação de escravidão.

Durante a crise dos mísseis, Fidel pediu a USSR autorização para iniciar uma guerra nuclear contra os EUA. Ele sabia que isso significaria a varredura de Cuba do mapa, mas o que é a vida desse povo perto dos ideais revolucionários de Fidel? Hitler expropriou o povo judeu para recuperar a economia alemã e descartou suas vidas depois. Stalin fez milhões de civis russos de escudo humano contra as invasões nazistas. Pol Pot matou 25% da população do Camboja em campos de trabalho forçado na reestruturação de sua economia socialista. Todos esses usaram a população como instrumento para executar seus planos políticos. O lugar de Fidel na história é ao lado dos ditadores totalitários e ele fez muito por merecer essa posição.

 

[1] Social Progress Index é um índice desenvolvido por pesquisadores de Havard e MIT baseado em diversas variáveis não econômicas que avaliasse o progresso social de forma mais ampla. https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_Social_Progress_Index

[2] Exportações e importações de bens e serviços dividido pelo PIB. Dados do Banco Mundial: http://data.worldbank.org/indicator/NE.TRD.GNFS.ZS

 

Ricardo Guedes é economista formado na UFRJ. Mestre pela FGV-RJ, hoje é doutorando na mesma instituição.

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