O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

Seja bem vindo e, como tudo na vida, aprecie com moderação!

O Brasil está em festa! Mas de qual Brasil nós estamos falando?

A vitória dos Estados Unidos na II Guerra Mundial impôs ao mundo ocidental o completo rechaço a regimes totalitários e a intolerância racial. Isso porque o mundo saía de uma guerra em que o racismo era parte intrínseca das batalhas ideológicas e também militares. Pois a brutalidade do racismo, que se desenvolveu com o nazismo (incorporado pelo fascismo), seguramente reacendeu o racismo em outras partes da Europa e do mundo. A morte de 6 milhões de judeus - tidos pelos alemães como raça inferior - não caberia mais num mundo em que se pretendia ser democrático.

Em busca de uma forma de mediar conflitos entre povos e nações foi criada a ONU em 1945.

Logo após sua criação, um dos principais objetivos da ONU era demonstrar ao mundo que é possível todos os povos viverem em harmonia, independentemente da raça ou origem (branco/negro, judeu/alemão).

Mas é possível demonstrar que raças distintas e povos de diferentes nações podem conviver pacificamente?

Aos olhos de muitos, o Brasil era o exemplo perfeito para demonstrar a possibilidade de diferentes povos conviverem pacífica e harmoniosamente.

Por conta disso, na década de 1950, a UNESCO encomendou um estudo que comprovasse a relação coesa e afinada entre negros e brancos no Brasil. O sociólogo Florestan Fernandes encabeçou um trabalho de pesquisa, coordenando jovens como Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, a fim de compreender esse suposto equilíbrio de convivência entre negros e brancos brasileiros [1].

No entanto, o que os pesquisadores acabaram demonstrando é que de uma sociedade tida como racialmente resolvida passamos à constatação de que grupos sociais se posicionam diferentemente no interior da sociedade e de que a distribuição das posições sociais está ligada ao preconceito racial e também par em par com o preconceito de classe, sendo, portanto, uma desigualdade constitutiva da sociabilidade na sociedade brasileira.

O estudo apresentado à UNESCO foi muito mais abrangente do que apenas a abordagem da questão racial.

Este estudo mostrou que o nosso problema é estrutural.

Como querer que um filho de alemão que vive em Blumenau, em Santa Catarina, se reconheça como brasileiro tanto quanto um índio que vive numa comunidade ribeirinha do Rio Amazonas? Como querer que um sertanejo vivendo no mais afastado rincão do Piauí se veja tão brasileiro como um executivo que trabalha em plena Avenida Paulista? Como querer que os moradores da favela da Mangueira, da foto acima, tenham o mesmo sentimento de pertencimento à mesma nação do que os abastados que estavam dentro do Maracanã na linda festa de abertura dos jogos olímpicos?

Segundo Caio Prado Jr., em seu livro “A Formação do Brasil Contemporâneo”, um dos nossos problemas é o de formação de um sentimento nacional justamente pela fragmentação do próprio “povo brasileiro”.

Para o resto do mundo, nós podemos estar em festa, mas é importante que todos nós, brasileiros e brasileiras, tenhamos consciência desse paradoxo que é o Brasil.

O Brasil é um múltiplo mal resolvido e, internamente, a pergunta que deveríamos nos fazer é: qual Brasil está em festa?

[1] Como resultado das pesquisas sobre raças no Brasil, Florestan Fernandes publicou alguns livros sobre esta questão, dentre ele eu destaco: “Negros e Brancos em São Paulo” e “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”.

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