O Café Politik surgiu do acirramento político ocorrido no Brasil em meados dos anos 10 do século XXI.

A eterna sina do país do futuro, que dá um passo pra frente, dois pro lado e um pra trás, nos motivou a criar um espaço para discussões políticas e econômicas sem o viés editorial imposto pelas grandes publicações.

Nossos redatores possuem backgrounds ideológicos distintos e estão totalmente livres para expor suas idéias, experiências e projeções astrais para o futuro da nação e do mundo.

Não temos a pretensão de convencer o leitor, mas de enriquecer o debate. 

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Senhor Trump, derrube esse muro!

(Getty Images)

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O ano era 1987, o mês junho, e o mundo ainda vivia sob o medo provocado pela Guerra Fria. O Bloco Comunista, liderado pela União Soviética já dava sinais de declínio, mas a divisão mundial entre as superpotências se mantinha inalterada. Norte-americanos e soviéticos, embora já ensaiassem, mesmo que timidamente, uma reaproximação, ainda preservavam o sentimento de hostilidade que meio século de história havia construído. Uma frase, porém, dita naquele verão, iria precipitar o fim daquela antiga ordem mundial.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha havia sido dividida em duas partes. O lado ocidental, sob a tutela dos franceses, ingleses e norte-americanos, era regido por um sistema capitalista, enquanto o lado oriental, alinhando a Moscou, vivia sob um regime comunista. Da mesma forma, a cidade de Berlim, capital do país até 1945, mesmo estando dentro da porção oriental, foi dividida seguindo a mesma lógica, uma lógica que atendia apenas aos interesses dos países vencedores da guerra e impunha ao povo alemão, uma divisão forçada de seu país.

Essa abominável divisão teve seu ápice no ano de 1962. Preocupado com a migração em massa de moradores da parte comunista de Berlim para o lado capitalista, o governo da República Democrática da Alemanha (nome dado a Alemanha Oriental, que de democrática só tinha o nome) iniciou a construção de uma das maiores aberrações da história da humanidade. Um muro cruzando a cidade inteira, passou a dividi-la impiedosamente, separando famílias, amigos e conhecidos. A travessia era proibida, e quem desrespeitasse a lei era severamente punido.

Voltando ao ano de 1987, já aquela altura, o mundo sentia os ventos da mudança. Sob o comando de Mikhail Gorbachev, a União Soviética havia iniciado um processo de abertura política e econômica. As relações com o ocidente haviam melhorado e a corrida armamentista reduzido o ritmo, até então frenético. Entretanto, o controle com mão de ferro sobre as repúblicas satélites e os outros países do bloco comunista se mantinha. Havia uma forte pressão na região demandando mais liberdade, a comunidade internacional exigia mais transparência, mas os soviéticos não cediam. É nesse contexto que naquele ano, durante uma visita a Berlim, o presidente norte-americano Ronald Reagan faz um de seus discursos mais inspirados. Tendo ao fundo o Portão de Brandemburgo parcialmente coberto pelo muro, ele se dirige ao Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética e profere palavras que entrariam na história: “Senhor Gorbachev, derrube esse muro!”. Pouco mais de dois anos depois, o muro caiu e o comunismo se tornou apenas parte da história.

Evento mais importante da segunda metade do século XX, a queda do muro de Berlim completou 27 anos na última quarta-feira, dia 9. Aparentemente, porém, talvez por ter concorrido com a consagração do polêmico magnata americano, Donald Trump, como novo Presidente dos Estados Unidos, essa data não teve a atenção devida. Uma negligência histórica, que já seria inaceitável em circunstâncias normais, mas que se torna ainda mais grave quando nos damos conta que as ideias que Trump defendeu durante sua campanha vão inteiramente de encontro aos princípios mais importantes que levaram a queda de todo o ideal comunista no final dos anos 80.

Movido por um discurso retrógrado, preconceituoso e isolacionista, Trump surpreendeu o mundo ao derrotar a favorita Hillary Clinton. Aproveitando-se de uma classe trabalhadora desiludida com a globalização, o magnata prometeu recuperar a indústria do país e devolver aos americanos os empregos que supostamente teriam sido perdidos para estrangeiros. Para isso, prometeu medidas protecionistas, “guerra comercial” contra países como a China, que segundo sua análise, promovem uma competição desigual com os americanos, e um enrijecimento da política imigratória, que tem entre os principais projetos a criação de um polêmico muro em toda a extensão da fronteira com o México.

É verdade que a construção de tal muro é uma medida meramente demagógica, cujo efeito prático é questionável. Nas últimas décadas, os Estados Unidos tem investido bilhões na proteção de suas fronteiras, mas ainda assim centenas de milhares de mexicanos entram no país anualmente. A construção de um barreira física como um muro tem acima de tudo um significado simbólico, uma preocupante mensagem para o mundo de que os Estados Unidos a partir de agora seguirão um caminho de isolamento político, econômico, social e cultural sem precedentes.

Tais idéias são inconcebíveis nos dias de hoje. Vivemos a era da informação, onde as distâncias foram reduzidas e o intercâmbio de idéias, mercadorias e pessoas se tornou uma realidade sadia e irreversível. Medidas como as que o então candidato Trump prometeu são prejudiciais em todos os aspectos não só para o resto do mundo, como também para os Estados Unidos, que talvez seja o exemplo mais bem sucedido de sociedade multicultural que existe. Ingleses, irlandeses, italianos, alemães, judeus, latinos, africanos, árabes, japoneses, chineses, entre outros, convivem há pelo menos um século no território americano, e juntos levaram o país a ser a maior economia do mundo.

O que a história nos mostrou, é que não há mais espaço para muros. Não queremos mais barreiras, divisões ou qualquer tipo de intervenção dessa natureza. Precisamos de um mundo integrado, mais tolerante e onde todos tenham a chance de buscar melhores oportunidades de vida. Isso não é caridade, não é comunismo, não é bagunça. Esse é na verdade, o elemento básico para o desenvolvimento sadio e justo de qualquer sociedade capitalista. E é por isso que clamamos: Senhor Trump, derrube esse muro!

Imaginem

Café com Politik #5 - Donald Trump eleito Presidente dos EUA